Brasil Energia, nº 486, 19 de abril de 2024 55 Paula Kovarsky, engenheira mecânica e de produção, com MBA em finanças corporativas, tem mais de 20 anos de experiência no setor de energia e é VP na Raízen. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Paula Kovarsky A Cop28 terminou com a seguinte frase: “...transitioning away from fossil fuels in energy systems in a just, orderly and equilable manner, accelerating action on this critical decade, so as to achieve net zero by 2050 in keeping with science”. Muito se debateu sobre o significado dessas palavras. Proponho uma abordagem simples e possivelmente otimista sobre o significado delas e, principalmente, das oportunidades que não podemos desperdiçar, ainda mais jogando em casa - estamos sediando o G20 (Grupo das 20 maiores economias do mundo) e o B20 (representação do setor privado no G20) esse ano e a Cop30 acontece no Brasil, no ano que vem. Vamos por partes sobre a frase. “...transitioning away from fossil fuels in energy systems”. Pela primeira vez se fala abertamente sobre o começo do fim da era do petróleo. Não há dúvida de que o mundo precisa urgentemente reduzir o consumo de combustíveis fósseis. Mas, infelizmente, não é possível fazer isso da noite para o dia. Eletrificar é uma ótima ideia, mas não dá para fazer de uma vez e tem setores da economia onde isso ainda não é possível. Fora custo. A palavra certa é transição mesmo. “... in an orderly and equitable manner”. A transição precisa acontecer de forma ordenada e racional, considerando as prioridades, desafios, diferenças e vantagens competitivas de cada região do planeta. “… accelerating action on this critical decade, so as to achieve net zero by 2050”. Temos urgência, não adianta ficar falando de 2050 e não priorizar aquilo que pode ser feito agora. Se não atingirmos as metas de 2030 dificilmente chegaremos lá em 2050, fora o risco de ser tarde demais. 2023 foi o ano mais quente da nossa história! “...in keeping with science”, precisamos medir as emissões de forma correta, baseada em ciência, através de um sistema reconhecido internacionalmente, mas capaz de refletir as particularidades de cada região, especialmente as do chamado Global South. Bola no nosso campo. O Brasil começa o jogo com um time campeão, com uma das matrizes energéticas e elétricas mais limpas do mundo, dono da maior floresta tropical do planeta, tendo agricultura de primeiro mundo, privilegiada pelo clima e disponibilidade de água, numa democracia estabelecida e a distância segura, pelo menos geograficamente, de qualquer conflito internacional. Mas será que isso é suficiente para ganhar o jogo? A questão do desmatamento é óbvia. Desmatamento ilegal, como o próprio nome diz, não deveria nem entrar na discussão. É igual doping, tira o jogador do campeonato. Isso posto, pleitear financiamento internacional para restauro, conservação e reflorestamento passa a ser absolutamente legítimo, estabelecidas as condições legais e regulatórias para que projetos saiam do papel e sejam reconhecidos internacionalmente, em bases científicas - regras claras para o jogo. O Brasil é o celeiro do mundo, maior produtor de soja, segundo maior de milho, maior em açúcar, agropecuária, o Brasil que dá certo e exporta. Falemos então de energia, encarando de frente a realidade de que será uma transição gradual, mas temos urgência. O Brasil não tem um problema na sua matriz energética. O Brasil é solução. Energia elétrica renovável, abundante e competitiva. Poderemos sim produzir hidrogênio verde em bases competitivas em algum momento da próxima década. Temos uma frota de carros leves flex, capaz de usar etanol, combustível competitivo com sua alternativa fóssil e O futebol e a transição energética
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