e-revista Brasil Energia 487

Brasil Energia, nº 487, 25 de junho de 2024 17 Gonçalo Pereira, engenheiro agrônomo, é professor na Unicamp e líder do Laboratório de Genômica e Bioenergia. Escreve na Brasil Energia cada 4 meses. Gonçalo Pereira Valor e Preço: a chave para o futuro Tudo é energia, mas ela se manifesta de diferentes formas, que são precificadas a partir do valor percebido. Hoje, o grande desafio da civilização é equalizar Valor e Preço e o papel da ciência é oferecer os elementos objetivos para essa precificação. O mercado, pela sua natureza utilitária, não é capaz de encontrar as melhores soluções. Afinal, “no longo prazo, estaremos todos mortos”. Portanto, cabe aos governos estabelecer os princípios, via políticas públicas, para que a sociedade possa viver em equilíbrio. Com a ciência, descobrimos que o nosso planeta viveu, nos últimos 10.000 anos, o seu período geológico mais estável, o Holoceno, com variações anuais de temperatura média de que não ultrapassavam 1ºC. Nos 100.000 anos anteriores, no Pleistoceno, essa variação era de mais de 10ºC por década, que levavam a um verdadeiro inferno climático. Não por coincidência, foi exatamente a partir do Holoceno que nós humanos, que já perambulávamos pelo planeta há mais de 300 mil anos, fomos capazes de fazer os sucessivos adensamentos de energia, sob a forma de agricultura e comércio, que nos levaram à civilização. Ou seja, a civilização foi resultado da inteligência humana operando em um quadro de estabilidade climática. Entretanto, a inteligência humana não evoluiu com a civilização. Ela é anterior a isso, tendo prosperado na época das cavernas, quando a escassez era a regra, assim como o pensamento de curto prazo. Dessa forma, sempre perseguimos fazer o máximo consumindo o mínimo da nossa própria energia, o que nos levou à Revolução Industrial e ao uso da energia fóssil para substituir o nosso trabalho. Porém, “não existe almoço grátis”. Com o aumento da nossa capacidade científica, constatamos que o uso da energia fóssil estava aumentando vertiginosamente as concentrações de gases de efeito estufa (CO2, metano e vapor d'água), o que poderia levar a alterações da complexa circulação de fluidos do planeta, que é o que define o clima. Definitivamente, com sistemas de extrema complexidade, que estão funcionando, é melhor não mexer. Mas agora é tarde. Já afetamos a atmosfera a ponto de termos interrompido o Holoceno e entrado em uma nova era, o Antropoceno, que se caracteriza pela instabilidade. Olhando pela ótica de uma agência de avaliação de risco, o planeta passou de um grau de investimento AAA para B menos, com tendência a ir para C, nota de “baixo interesse para investidores”. Entretanto, quando se trata do nosso planeta, os investidores somos nós e esse é o nosso único negócio. Se não quisermos falir, ou extinguir, a única coisa a fazer é investir para a melhoria da nota. Dito isso, reduzir as emissões de carbono fóssil e retirar o que já foi emitido da atmosfera é prioridade total. A ampla maioria das pessoas e dos governos reconhece o Valor dessa atividade. Entretanto, isso não é suficiente. Agora temos que colocar Preço nisso para uma ação de longo prazo, o que vai depender da regulamen-

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