10 Brasil Energia, nº 490, 28 de janeiro de 2025 entrevista Jerson Kelman jamento técnico. A EPE dizia qual era o mix com diferentes fontes, diferentes atributos. Agora temos uma invasão do Legislativo, do Congresso Nacional, em temas que os congressistas não têm, na média geral, conhecimento técnico suficiente. É como se os congressistas fossem decidir como é que devem ser feitas as operações cardíacas. Certamente não parece razoável que operações cardíacas sejam decididas por comitês do Congresso Nacional. De igual maneira não é razoável que procedimentos da operação do sistema elétrico, que é igualmente complexo, sejam decididos no Congresso. Mas estão sendo. Como estão sendo, o caminho que eu estou me referindo, já que a CP 33 não passou lá em 2017, seria a criação de uma unidade geradora ideal, a UGI. Lamentavelmente eu não acho que os bem-intencionados vão conseguir vencer a aliança entre parlamentares e os lobbies, que olham só parte, só seus interesses, e não os interesses coletivos. Então, razoável seria deixar que o próprio mercado, os próprios agentes, se organizem para oferecer essa tal da unidade geradora ideal. É uma solução interessante porque combina formas de geração de energia de maneira a manter a geração contínua... É despachável, flexível, com inércia, com tudo, que nem mesmo a hidrelétrica tem. A hidrelétrica é a que mais se aproxima de ter todas essas características, mas nem ela, nem as térmicas, ninguém tem todas as características reunidas. O senhor acha que as usinas a fio d’água precisam ser reconfiguradas para ter um reservatório e enfrentar as mudanças climáticas? Não, isso não é viável. Não é viável construir um reservatório em uma usina que já existe. O que se pode fazer é voltar a examinar o balanço entre impactos ambientais e sociais associados ao reservatório, que são sempre na escala local e são em geral negativos. E balancear isso com os impactos na escala nacional ou mesmo global, que são em geral positivos. Não é só por ser energia renovável. Mas é uma forma de geração que alavanca outras fontes também renováveis, como solar e eólica, mas sem a despachabilidade das hidráulicas. Agora, as mudanças climáticas, sem dúvida, impõem muitas modificações na operação do sistema hidrelétrico. E aí não são só as mudanças climáticas. São também as mudanças do uso do solo. Porque se no passado as águas dos rios eram utilizadas na geração de energia elétrica quase que exclusivamente; e hoje não mais. Na Bacia do São Francisco, por exemplo, grande parte da diminuição da vazão do rio é devida ao uso da água para irrigação do oeste da Bahia. Por outro lado, a substituição de florestas por agricultura também modifica o ciclo hidrológico dentro da bacia hidrográfica. Em alguns lugares, as mudanças no uso do solo fazem com que diminua a vazão disponível para a produção de energia elétrica, como no caso do São Francisco. Em outros casos, aumenta, como no caso da Bacia do Paraná. Porém, com aumento da variabilidade temporal das vazões.
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