e-revista Brasil Energia 497

Segundo maior produtor de trigo do país, o Rio Grande do Sul está encontrando na tradicional cultura de inverno a solução para fomentar a produção de etanol no estado. Pelo menos dois projetos de usinas que utilizarão o cereal na produção do biocombustível estão sendo desenvolvidos nos municípios gaúchos de Passo Fundo e Santiago. Os projetos oferecem como benefícios ampliar a demanda pelo trigo, incentivando os agricultores ao plantio, além de estimular a produção de etanol, já que o Rio Grande do Sul importa todo o combustível que consome de outros Estados. Em Passo Fundo, a Be8 está investindo R$ 1 bilhão no desenvolvimento de um projeto que mescla a produção de etanol de trigo com subprodutos a serem utilizados em ração animal e também na panificação. Em Santiago, a CB BioEnergia já aportou R$ 100 milhões em uma planta que utilizará o cereal típico de inverno para produzir etanol hidratado, álcool neutro - utilizado na fabricação de cosméticos e de bebidas -, subprodutos para ração animal e CO2 para gaseificação de refrigerantes. Os projetos de etanol a partir do trigo atendem a um anseio do governo do Estado, que desde 2021 conta com o Programa Pró-Etanol, destinado a atrair investimentos oferecendo incentivos fiscais tanto na instalação quanto para operação de indústrias de biocombustíveis no RS. Com a iniciativa, o governo estadual pretende ampliar também a demanda interna por essas culturas de inverno, de forma a incentivar a expansão na produção agrícola. A Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Estado informou que, com esse incentivo, já foram lançados projetos de usinas de etanol à base de trigo e outros grãos que somam o investimento de R$ 1 bilhão. A previsão é o uso de 790 milhões de toneladas de trigo, o que equivale a 16% da colheita gaúcha e 8% da nacional, segundo a secretaria. De acordo com Tiago Gorski Lacerda, diretor da CB BioEnergia, os projetos de produção de etanol de trigo poderão estimular o plantio de trigo e outras culturas de inverno, vencendo uma resistência do agricultor a produzir na estação do frio. Ele explica que o trigo é uma planta muito delicada e muito suscetível à ação do clima, que resulta com frequência em quebras de safra ou em produção de cereais de baixa qualidade. A ocorrência de chuvas em determinadas etapas do cultivo pode, por exemplo, comprometer a qualidade da produção, tornando o cereal impróprio para o uso na panificação ou impedindo o seu cultivo. “O Rio Grande do Sul cultiva no verão 12 milhões de hectares. Por conta das dificuldades proporcionadas pelo clima, no inverno a área de plantio cai para menos de 2 milhões de hectares”, explica. A produção do etanol, na prática, cria um mercado para o trigo que não atende aos requisitos de qualidade da indústria de panificação, diz o executivo. “Nós vamos usar o trigo de baixa qualidade para produção de etanol. Não vamos usar trigo utilizado como alimento para produzir etanol”, ressalva, lembrando que a empresa recebe com frequência esse tipo de questionamento. Brasil Energia, nº 497, 25 de agosto de 2025 43

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