e-revista Brasil Energia 500

Brasil Energia, nº 500, 11 de dezembro de 2025 31 Claudia Bethlem é bióloga com 20 anos de experiência em biodiversidade e sustentabilidade. É consultora na Immerse Ecoservices. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses. Claudia Bethlem Cadeias de valor e o desafio do carbono invisível Empresas que buscam estabelecer metas alinhadas à ciência e que priorizam informações supplier-based – dados coletados diretamente dos parceiros - medem com mais precisão, identificam pontos críticos e propõem metas de redução mais realistas O carbono invisível é hoje o grande ponto cego das estratégias de descarbonização corporativa. Invisível porque não se encontra dentro das fronteiras operacionais da empresa, mas espalhado por toda a cadeia de valor - nas matérias-primas adquiridas, no transporte de produtos, no uso e no descarte pelos consumidores. É o carbono que não aparece nos relatórios convencionais, mas sustenta quase tudo o que uma organização faz. Trata-se das chamadas emissões do Escopo 3, definidas pelo GHG Protocol como as emissões indiretas que ocorrem fora das operações diretas da empresa. Elas se diferenciam das emissões dos Escopos 1 e 2, que abrangem combustão, processos industriais e consumo de eletricidade, porque dependem de dados externos, muitas vezes fora do controle e até do alcance das corporações. O Escopo 3 abrange 15 categorias distintas, desde bens e serviços adquiridos, transporte e viagens de negócios até o uso e o fim de vida de produtos vendidos. É uma visão ampliada das emissões, que revela o impacto climático das relações comerciais e logísticas que sustentam os negócios. De acordo com o CDP, o Escopo 3 pode representar mais de 70% das emissões totais de uma empresa e, em alguns setores, como alimentos, energia, transporte, construção e bens de consumo, ultrapassa 90%. Por isso, ele se tornou o principal foco dos compromissos corporativos de neutralidade e o maior desafio técnico da agenda climática empresarial. Medir o que está além das fronteiras físicas da organização exige dados confiáveis e rastreáveis, algo difícil de obter em cadeias complexas e fragmentadas. A multiplicidade de fornecedores, a diversidade de processos e a falta de padronização na coleta de informações ainda limitam a precisão dos inventários. O GHG Protocol reconhece essa complexidade e propõe quatro metodologias principais para o cálculo do Escopo 3, cada uma com um nível diferente de confiabilidade. A primeira é a abordagem baseada em gastos, ou spend-based, que estima as emissões a partir do valor financeiro das compras, multiplicando-o por fatores médios de emissão. A segunda é a average-data, que utiliza médias setoriais e dados secundários de massa ou volume combinados a fatores de emissão genéricos. Em seguida vem o método híbrido, que combina dados primários fornecidos por alguns parceiros com médias ou estimativas para os demais elos da cadeia. E, por fim, o método mais preciso e desejável: o supplier-specific, em que os próprios fornecedores disponibilizam seus inventários e dados de atividade. Essas quatro metodologias formam uma espécie de escala de maturidade, em que a acurácia cresce conforme os dados se aproximam da origem. Quanto mais diretos e reais forem os dados — ou seja, fornecidos pelos próprios fornecedores —, mais consistente e útil será o inventário. Continue lendo esse artigo em: /energia/cadeias-de-valor-e-o-desafiodo-carbono-invisivel

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