e-revista Brasil Energia 502

82 Brasil Energia, nº 502, 30 de abril de 2026 Rubem Cesar Souza é engenheiro elétrico, mestre em Engenharia Mecânica, doutor e pós-doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos, professor na UFAm e Unicamp. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses. Rubem Cesar Souza Minerais Verdes Cruzam sem Controle a Fronteira A mineração que sustenta a transição energética está produzindo, na fronteira do Brasil com Venezuela e Guiana, escravidão moderna, exploração sexual, violência armada, poluição irreversível e ausência total de controle ambiental. Enquanto o mundo corre para substituir combustíveis fósseis por tecnologias limpas, a Amazônia brasileira e venezuelana tornou-se palco de uma nova disputa. Não se trata mais apenas de ouro, mas de minerais cada vez mais cobiçados pela economia verde, como coltan (tântalo e nióbio), cobre, níquel e cassiterita (estanho). Eles são o alicerce de baterias, semicondutores, painéis solares, turbinas eólicas e carros elétricos. Nos laboratórios industriais, esses minerais representam inovação. Na floresta, representam violência, desmatamento, contrabando e colapso humanitário. O epicentro dessa crise é o Arco Minero del Orinoco (AMO), no sul da Venezuela, cuja atividade mineral corre, infiltra-se e explode em impactos no norte de Roraima, atravessando rios, trilhas clandestinas, aldeias e fronteiras enfraquecidas. Arco Minero, promessa e turbulência - Em 2016, a Venezuela transformou 111 mil km2 de floresta amazônica na mais ambiciosa aposta de diversificação econômica de sua história: o Arco Minero del Orinoco, zona estratégica para exploração de ouro, coltan, diamantes, bauxita, ferro, cobre e urânio. Se, no discurso oficial, o AMO serviria para impulsionar um novo ciclo econômico, na prática tornou-se uma das regiões mais violentas e desreguladas da América do Sul, conforme investigações internacionais. Relatórios mostram que 86% do ouro venezuelano é produzido ilegalmente, alimentando redes de contrabando e corrupção ligadas ao regime. Houve aumento de doenças infecciosas, violência armada, deslocamentos forçados e colapso ambiental entre povos indígenas da região, especialmente os Yanomami. Mas não é só ouro. O AMO concentra também minerais que estão no coração da revolução energética global. Coltan – A columbita-tantalita combina tântalo e nióbio e é fundamental para supercapacitores, sistemas aeroespaciais (motores, turbinas, cápsulas orbitais, entre outros), baterias de equipamentos eletrônicos e capacitores de tântalo usados em vários componentes de carros elétricos. Reportagens recentes destacam que a Venezuela abriga depósitos de coltan que atraem grupos armados e redes criminosas, gerando disputas fatais na região de Bolívar. E o contrabando não termina ali; parte desse coltan cruza a fronteira com o Brasil, camuflado entre cargas de ouro e estanho. O mercado internacional raramente detecta a origem. Cobre e níquel - A transição energética depende de cobre para redes elétricas e níquel para baterias de íons de lítio. Ambos estão presentes em depósitos do AMO, segundo levantamentos apresentados em reportagens e análises geológicas. Com o aumento da demanda internacional, cresce também o valor de mercado desses minerais, o interesse de facções armadas e o incentivo econômico para explorações clandestinas. Continue lendo esse artigo em: /minerais-verdes-atravessam-a-fronteirabrasil-venezuela

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