72 Brasil Energia, nº 504, 30 de junho de 2026 Rubem Cesar (continuação) Infraestrutura: o principal desafio Apesar do elevado potencial energético amazônico, a infraestrutura ainda representa o principal entrave para o desenvolvimento da cadeia do hidrogênio. Em muitas localidades, o transporte fluvial continua sendo o principal meio de circulação de equipamentos e combustíveis. A logística portuária será um dos pilares da competitividade brasileira no mercado internacional de hidrogênio e derivados. Alguns portos brasileiros já estruturam projetos relacionados à economia do hidrogênio, como o Complexo do Pecém, o Porto do Açu e o Porto Piauí. Na Amazônia, os portos podem assumir função estratégica ainda mais relevante devido à extensa malha hidroviária regional. A navegação fluvial pode reduzir custos de transporte interno e facilitar o escoamento de equipamentos, combustíveis e insumos industriais. Portos amazônicos modernizados poderão atuar tanto no abastecimento regional quanto na exportação de derivados energéticos de baixo carbono. Entretanto, isso exigirá investimentos significativos em terminais, armazenamento criogênico, dragagem, segurança operacional, infraestrutura multimodal e eletrificação portuária. Além disso, a logística amazônica deverá considerar fatores climáticos extremos, como secas severas e variações sazonais dos rios, que afetam diretamente a navegabilidade regional. Exportação e oportunidades econômicas O mercado global de hidrogênio de baixo carbono deverá movimentar trilhões de dólares nas próximas décadas e o Brasil possui vantagens competitivas relevantes, com sua matriz elétrica renovável, disponibilidade hídrica, potencial solar, abundância de biomassa, experiência em bioenergia e posição geográfica estratégica. Nesse contexto, a Amazônia pode se tornar importante fornecedora de moléculas energéticas de baixo carbono, especialmente amônia e combustíveis sintéticos derivados do hidrogênio. Entretanto, para evitar a reprodução de modelos históricos de exploração primária, é fundamental promover agregação regional de valor com desenvolvimento tecnológico e capacitação profissional amazônicos. Projetos energéticos de grande escala podem provocar impactos relacionados à ocupação territorial, pressão sobre recursos hídricos e expansão desordenada da infraestrutura, mas políticas públicas e planejamento territorial podem garantir o equilíbrio necessário entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental. O fato é que o fortalecimento da bioeconomia amazônica e da geração descentralizada pode favorecer modelos energéticos mais inclusivos e adaptados às realidades locais, com a participação de comunidades tradicionais, universidades, institutos tecnológicos e organizações regionais. E, diferentemente de abordagens restritas ao hidrogênio verde produzido exclusivamente por energia solar ou eólica, a realidade amazônica aponta para um modelo mais diverso, baseado na integração entre hidroeletricidade, biomassa, energia solar, sistemas hidrocinéticos e soluções híbridas. No curto prazo, as aplicações descentralizadas em sistemas isolados podem representar o caminho mais viável para o hidrogênio amazônico. Já no médio e longo prazo, a expansão da infraestrutura logística e industrial poderá posicionar a Amazônia como protagonista internacional da transição energética de baixo carbono. Assim, o hidrogênio na Amazônia não deve ser entendido apenas como promessa futura, mas como uma oportunidade em construção, cuja viabilidade dependerá da capacidade de integrar desenvolvimento econômico, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental.
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