Brasil Energia, nº 507, 21 de setembro de 2026 57 O desafio tecnológico para a expansão do mercado de biometano O Brasil está preparado para transformar essa expansão em liderança tecnológica e desenvolver aquilo que ainda não existe? Precisamos fortalecer essa cultura no Brasil e evitar copiar tecnologias quando temos condições completamente diferentes Nos dias 11 e 12 de agosto participei do 13º Fórum do Biogás, em São Paulo, e pude constatar que o mercado brasileiro de biometano finalmente está ganhando escala, confiança e perspectiva. Empresas, investidores, fornecedores de tecnologia, consumidores e representantes do governo discutiram regulação, novos negócios, abertura do mercado de gás e descarbonização. O mercado se mostrou realmente aquecido. Mas saí do evento com uma inquietação: o mercado parece estar avançando mais rápido do que a nossa capacidade de desenvolver as tecnologias que irão sustentá-lo. O Brasil está preparado para transformar essa expansão em liderança tecnológica? A agenda regulatória avançou muito, com a Lei do Combustível do Futuro, o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano e a recente regulamentação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB). O CGOB representa um avanço importante ao atribuir valor ao atributo ambiental do biometano e dar maior previsibilidade ao mercado. Segundo dados da ABiogás, a produção brasileira cresceu 75% em 2025, chegando a cerca de 1,06 mi m3/dia. O país já conta com 21 plantas autorizadas pela ANP e 48 em processo de autorização. No entanto, não podemos confundir crescimento da capacidade instalada com inovação tecnológica. Grande parte da expansão ainda está concentrada em soluções conhecidas, especialmente no aproveitamento de biogás de aterros sanitários. São projetos importantes, mas representam rotas tecnológicas já maduras. Precisamos transformar essa expansão do mercado em vantagem competitiva baseada em conhecimento. Temos uma das maiores “reservas” de resíduos do mundo, provenientes das cadeias agroindustriais, da pecuária e do setor urbano. É nessa diversidade, ainda subaproveitada, que vejo uma janela de oportunidade para o Brasil. Por que não aproveitar este momento para desenvolver soluções pensadas para as condições brasileiras, em vez de continuar importando tecnologias e equipamentos? A inspiração nos países líderes deveria estar em entender como eles organizam a relação entre pesquisa, infraestrutura experimental e mercado. Na Alemanha, empresas recorrem a centros como o DBFZ para desenvolver e testar soluções para problemas concretos da indústria. Na Suécia, o Biogas Solutions Research Center (BSRC) aproxima pesquisa, empresas e setor público. Na Dinamarca, a Aarhus University mantém, na Foulum Biogas Plant, infraestrutura para pesquisa e demonstração de tecnologias de biogás em diferentes escalas. A Billund BioRefinery, também na Dinamarca, é outro exemplo. O proBruna de Souza Moraes é pesquisadora e coordenadora do Nipe/Unicamp, engenheira de Alimentos, mestre e doutora em Ciências da Engenharia. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Bruna Moraes
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