e-revista Brasil Energia 508

precisa compreender melhor aquilo que está contratando. Nesse processo surge a figura do comercializador varejista. Consumidores de baixa tensão que migrarem serão representados perante a CCEE por um agente varejista. Isso simplifica a operação, mas cria outra decisão: como escolher esse representante? Preço será importante, mas não suficiente. Solidez financeira, transparência contratual, atendimento, regras de reajuste, prazo e condições de rescisão também deverão ser avaliados. A experiência atual mostra que o modelo já vem ganhando relevância. Em abril de 2026, cerca de 75% das novas migrações para o mercado livre ocorreram por meio de representação varejista, segundo a CCEE. Há ainda outra questão: economia e previsibilidade não são exatamente a mesma coisa. Para uma empresa industrial, energia é componente do custo de produção. Por isso, um contrato que não apresente o menor preço inicial pode ser interessante se proporcionar maior previsibilidade durante dois, três ou cinco anos. O melhor contrato não será necessariamente aquele que oferecer o menor preço no primeiro momento, mas o que combinar preço, previsibilidade, flexibilidade e risco de forma adequada ao perfil do consumidor. Também é importante compreender que mudar de fornecedor não significa mudar a rede elétrica. A distribuidora continuará responsável pela infraestrutura que leva a energia até a instalação. Essa distinção ainda não parece clara para todos. Cerca de metade dos entrevistados pela McKinsey associou a troca de fornecedor à expectativa de redução das interrupções de energia. Uma empresa poderá, portanto, migrar para o mercado livre, sofrer posteriormente uma interrupção causada pela rede e atribuí-la equivocadamente ao novo fornecedor. Por isso, informação e transparência serão fundamentais para a abertura. A regulamentação prevê instrumentos como um produto padrão e um preço de referência para facilitar a comparação entre propostas. Essa comparação precisa responder perguntas bastante objetivas. Quando uma oferta promete “25% de economia”, 25% sobre o quê? Sobre a parcela de energia? Sobre a tarifa regulada? Sobre a conta completa? Durante quanto tempo? Quais custos estão incluídos? O consumidor passará a fazer perguntas que antes não faziam parte de sua relação com a conta de luz. Também não existe um único perfil de consumidor de baixa tensão. Uma pequena loja, uma indústria média e um hospital poderão ter o mesmo direito de escolher o fornecedor, mas têm necessidades, padrões de consumo e tolerâncias a risco diferentes. Por isso, a abertura não deverá significar uma migração imediata de milhões de consumidores. E talvez nem /deva. A decisão racional dependerá da economia efetivamente disponível, do perfil de consumo, das condições contratuais e da capacidade da empresa de compreender os riscos envolvidos. O sucesso da abertura do mercado livre não deveria ser medido apenas pelo número de consumidores que deixarem o ambiente regulado. Um indicador igualmente importante será a capacidade dessas empresas de entender o que estão comprando, quanto efetivamente economizarão e quais compromissos assumirão. Durante décadas, empresas brasileiras aprenderam a negociar matérias-primas, financiamento, seguros, logística e outros insumos essenciais. Energia elétrica, entretanto, permaneceu para muitas delas como uma tarifa definida externamente. A partir de 2027, isso começa a mudar. A liberdade de escolha poderá estimular concorrência e oportunidades de redução de custos. Mas liberdade sem informação suficiente também pode levar a decisões inadequadas. Para pequenas e médias empresas brasileiras, o mercado livre abre uma oportunidade relevante e, ao mesmo tempo, um novo desafio empresarial. Energia deixa de ser apenas uma conta a pagar. Passa a ser uma compra a administrar. Brasil Energia, nº 508, 30 de outubro de 2026 13

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