Brasil Energia, nº 508, 30 de outubro de 2026 91 Com mais de 3,1 mil instalações e capacidade de tratamento superior a 640 milhões de toneladas anuais, a recuperação energética de resíduos urbanos (WTE, ou waste to energy) avança no mundo, segundo estudo da consultoria alemã Ecoprog. O crescimento – que em 2025 foi de 16 milhões de toneladas – tende, porém, a mudar de eixo, principalmente na principal tecnologia empregada globalmente, a incineração direta do lixo (mass burning), na qual o calor da combustão produz vapor para acionar turbinas e gerar eletricidade. Após liderar o ciclo recente de construção dessas termelétricas, a China passou a enfrentar excesso de capacidade em algumas cidades e busca novos mercados pelo mundo. Já na Europa, onde a solução está consolidada há mais tempo, os investimentos priorizam a modernização das usinas e a redução das emissões, que poderão ser cobradas no mercado de carbono. De acordo com a Ecoprog, a China acrescentou mais de 12 milhões de toneladas anuais de capacidade em 2025, mas em ritmo bem inferior ao recorde de 2021, quando 190 plantas foram inauguradas, somando 64 milhões de toneladas anuais. Cidades da costa leste do país já têm capacidade excedente, com a reciclagem e a desaceleração econômica ajudando a reduzir a oferta de resíduos. Incentivos Ao final de 2025, segundo dados do governo, a China contava com 1.137 instalações de incineração de resíduos urbanos, com capacidade nominal de 1,18 milhão de toneladas diárias. O panorama supera em quase 48% a meta de 800 mil toneladas diárias estabelecida no 14º Plano Quinquenal (2021-2025) para uso da solução. A participação da incineração na capacidade de tratamento também superou a meta de 65% do plano, chegando a 78,1% em novembro de 2025. A expansão chinesa foi impulsionada por fortes incentivos públicos. Em 2012, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC) estabeleceu uma tarifa de 0,65 yuan/kWh para a eletricidade das usinas WTE, superior à das termelétricas a carvão, aplicada a até 280 kWh por tonelada de lixo recebida. A diferença em relação à tarifa do carvão era subsidiada pelas redes elétricas provinciais e por um encargo nacional de apoio às fontes renováveis. Isso assegurava receitas adicionais aos operadores, que também recebiam pelo tratamento dos resíduos. A partir de 2020, porém, o governo começou a reduzir os incentivos, limitando os recursos centrais, dividindo os custos com as administrações locais e introduzindo concorrência tarifária entre novos projetos. Estudo publicado em fevereiro na revista Nature Communications, com dados de 975 usinas, mostra que a geração bruta saltou de 5 TWh em 2010 para 120 TWh em 2023. A produção líquida foi de 99 TWh, equivalentes a 7% do consumo residencial chinês. Europa: modernização e carbono Na Europa, a incineração se consolidou associada às restrições aos aterros e a redes de aquecimento urbano. A demanda por calor favorece a cogeração nesses países com invernos rigorosos: as usinas
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