Brasil Energia | Ed. 456 - Maio, 2019

46 Brasil Energia , nº 456, 20 de Maio de 2019 ENTREVISTA Carlos Mastrangelo nos últimos anos, com a queda dos preços do barril de petróleo. Agora, está em retomada e, por isso, está sendo uma coincidência muito feliz. A experiência com navios-plataforma começou no Brasil ou já havia casos semelhantes em outros países? A Petrobras foi uma das pioneiras, quase que simul- taneamente com a Shell, que tinha um projeto na Es- panha, na década de 70. Na época, a Petrobras decidiu instalar uma planta de processo sobre o convés de um dos navios-tanques de sua frota, transformando-o em um navio de produção, o NP Presidente Prudente de Moraes (NP/PPMoraes). Para operar em qual campo? No campo de Garoupa, na Bacia de Campos. O objetivo era antecipar a produção do campo en- quanto era preparado seu sistema definitivo. A ques- tão é que a plataforma era classificada como navio e só poderia ficar na locação por alguns poucos anos, conforme estabelecido por uma regulamentação da IMO [Organização Marítima Internacional]. Esse ti- po de conceito não permitia que a plataforma ope- rasse em uma locação por 20 anos, por exemplo. Por- tanto, tinha que ser utilizada em campos marginais ou como sistema de produção antecipado (SPA), que foi o caso em questão. Depois dessa primeira experiência, para onde o NP/PP Morais foi remanejado? No final dos anos 80, ele já estava produzindo no campo de Albacora, onde operaria, inicialmen- te, por, no máximo, cinco anos. No entanto, o siste- ma definitivo do campo estava atrasado e, por isso, começamos a pensar no que fazer para que o NP/PP Morais não fosse mais considerado apenas um na- vio, o que desencadeou uma série de atividades e ne- gociações com a Marinha do Brasil e sociedades de classe do navio. O seu trabalho buscou, então, criar um arcabouço técni- co e jurídico para os FPSOs? Exato. Naquela época, esse foi um projeto meu pa- ralelo, pois eu trabalhava efetivamente como gerente de plataforma, mas ele acabou recebendo maior destaque. A primeira regra de FPSOs foi lançada pela socieda- de classificadora ABS (American Bureau of Shipping) em fevereiro de 1992. Na sequência, a Petrobras fez sua primeira licitação de afretamento de um FPSO, no ca- so o próprio PP Morais, que, posteriormente, passou a se chamar Petrobras-34. É a partir daí que o conceito de FPSO começa a competir, em igualdade de condi- ções, com outras soluções, como plataformas semisub- mersíveis. Foi um pioneirismo técnico e jurídico por- que criamos uma compatibilização de interfaces entre as regras próprias de navios com as de plataforma, além de darmos um grande salto tecnológico com a utiliza- ção do conceito. Isso foi no início da década de 90? Sim. E, logo após a contratação da P-34, em um in- tervalo de dois anos, os sistemas de produção escolhi- dos para Marlim e Albacora também foram nessa linha de FPSOs. Depois vieram a P-31, P-33, P-35, P-37, P-38, P-43, P-48, etc. No mundo todo pôde-se ver o boom de número de unidades desse tipo a partir de meados dos anos 90. Fora do Brasil, antes disto, a Petrobras era co- nhecida como a empresa de semissubmersíveis. No final daquela década, o senhor atuou na criação da General Technical Description (GTD), documento que se uti- liza até hoje para afretar FPSOs. No tempo em que trabalhei no PP Morais, quan- do ele ainda era classificado como navio, com os ofi- ciais da Fronape (hoje Transpetro), observei como os armadores especificavam os navios para a forma de contratação. Eles apenas descreviam as funcionalida- des que queriam, e quem elaborava o projeto e a espe- cificação técnica era o estaleiro ou a empresa respon- sável pelo projeto e construção, não o armador. Qua- Foi um pioneirismo técnico e jurídico porque criamos uma compatibilização de interfaces entre as regras próprias de navios com as de plataforma

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