Brasil Energia | Ed. 458 - Agosto, 2019
90 Brasil Energia , nº 458, 9 de agosto de 2019 Paula Kovarsky Paula Kovarsky é Head of US Office e diretora de Relações com Investidores da Cosan desde 2015, com mais de 20 anos de experiência no setor de Óleo & Gas O mercado financeiro costuma antecipar e precifi- car eventos em função de sua probabilidade, por vezes com certo exagero. Quando o evento finalmente acon- tece, a reação acaba sendo inversa, uma vez que quem acertou a tendência vai querer monetizar o acerto, co- locando dinheiro no bolso. Ou simplesmente o cenário vai mudando e outros assuntos tomam conta da pauta. Mas é fato que o mercado avalia com muito critério a equação de risco e retorno dos investimentos. Um ce- nário de incerteza, especialmente quando ela é difícil de quantificar, pode ter grandes consequências na per- cepção de risco do mercado. Para um investidor num escritório nos Estados Unidos ou na Europa, fica difícil não acreditar em notícias quando elas têm como fon- te o governo, um político relevante ou órgão regulador. Para empresas listadas, existem regras muito claras sobre informações que podem ou não ser divulgadas e há obrigatoriedade de dar transparência aos investido- res de maneira uniforme. A CVM imputa ao profissio- nal que se comunica com stakeholders, seja ele finan- ceiro ou não, responsabilidade sobre dados ou opiniões divulgadas, especialmente quando isso gera variações no preço das ações. Onde estaria a responsabilidade de governos, polí- ticos e reguladores sobre discussões públicas que têm impacto em setores da economia e ações das empresas listadas? Na área de energia, basta olhar a performan- ce das ações da Petrobras nos últimos dez anos. A em- presa chegou a valer R$ 510 bilhões no auge da euforia com o pré-sal, para perder metade do valor em função de como foram conduzidas as discussões sobre a mu- dança na lei do petróleo e implementação dos contra- tos de partilha, seguida da capitalização da companhia. Quanto custou à Petrobras o congelamento de preços dos combustíveis? O tema ganhou proporção maior após a greve dos ca- minhoneiros de maio de 2018, especialmente pela for- ma como vem sendo discutido desde então. Os preços no mercado brasileiro caminhavam na direção da paridade internacional, chegando a ter reajustes diários. Mas o au- mento do preço internacional aliado à desvalorização da moeda brasileira fez com que preços em reais subissem 15% em seis meses, servindo de argumento para uma gre- ve que parou o país às vésperas das eleições presidenciais. Como se as perdas com a paralisação da atividade econômica não fossem suficientes, iniciou-se discus- são pública, politizada e por vezes pouco educada so- bre as causas do aumento dos preços, numa busca im- produtiva por vilões e mocinhos. Temas importantes como transparência foram confundidos com livre con- corrência e respeito a contratos. Grupos políticos apro- veitaram para buscar pautas isoladas com risco de au- mento dos preços para o consumidor final. No entan- to, pouco se falou sobre impostos e as graves distorções que o não pagamento dos mesmos gera no mercado. Esses temas foram discutidos de forma pouco orde- nada e difusa, inclusive nos bastidores e em reuniões de interlocutores com grupos de investidores. De uma ho- ra para outra, um setor avaliado como seguro e relati- vamente defensivo pela maioria dos investidores virou tema de relatórios sobre incerteza regulatória, concor- rência irregular e até risco político. Nenhum interlocu- tor do governo, da política ou regulador foi chamado a responder sobre a responsabilidade de falar publica- mente sobre o tema de forma pouco organizada, in- completa e nem sempre transparente. Nosso trabalho é ajudar o mercado a separar o joio do trigo. Mas com tantos interlocutores teoricamente qualificados, essa tarefa pode se tornar inglória. No li- mite, com tantas alternativas de investimento no mun- do, a percepção de risco pode tirar empresas, um se- tor ou até um país do radar do mercado. Quando isso acontece, recuperar a confiança pode ser demorado e custar muito caro. QUEM SE RESPONSABILIZA PELO QUE FALA?
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