Brasil Energia | Ed. 462 - Abril, 2020

Brasil Energia , nº 462, 30 de abril de 2020 13 Ieda Gomes Ieda Gomes é engenheira, mestre em Energia e pós graduada em Meio Ambiente, consultora independente e membro do conselho de administração de empresas internacionais de energia, infraestrutura e certificação A pandemia do vírus Corona e o fracasso da Opep em reduzir cotas de produção, tiveram impactos dramáticos na indústria do petróleo: destruição da demanda e excesso de oferta causaram uma queda brusca nos preços do petróleo e do gás natural. O preço Brent despencou de $63,8/barril, em janeiro de 2020, para $20.5/barril, em 28 de abril. Com a conti- nuidade da baixa demanda em função da pandemia, há estimativas de queda para abaixo de $20/barril no segun- do trimestre de 2020. A Agência Internacional de Energia prevê uma queda na demanda mundial de petróleo da or- dem de 2,5 MMbarris/dia no primeiro trimestre de 2020, dos quais 70% na China. A queda é reflexo da baixa ati- vidade econômica: cancelamento de viagens e eventos e quarentena generalizada. A queda dos preços deverá impactar sobretudo a ativi- dade dos produtores de shale gas nos EUA e na Argentina. Nos EUA, empresas altamente endividadas não gerarão cai- xa para pagar os juros da dívida; segundo o JP Morgan, a expectativa é de inadimplência de 24%mesmo se os preços do petróleo se mantenham em $40/barril no final de 2020. No caso do gás natural, os preços HenryHub (HH), en- trega emabril, são de $1,89/MMBtu, contra $2,07 no início de 2020. Isso implica emumpreço FOB de GNL gulf coast, da ordem de $5.17/MMBtu, assumindo a fórmula de pre- ços tradicional:“capacity fee”de $3/MMBtu e preço damo- lécula equivalente a 1.15*HH. Como o preço no mercado spot é de $1.89/MMBtu (28/04/2020), isso implica que os supridores de GNL nos EUA estariam “out of money”. Os compradores de GNL spot estarão em posição mais vantajosa do que os os com- pradores de longo prazo, formula Henry Hub. Um com- prador spot pagaria $1,89/MMBtu, comparado com pre- ços longo prazo de $5,8-6,10/MMBtu. No Brasil, o mercado poderia se beneficiar dos baixos preços internacionais, embora ainda não se tenha concre- tizado qualquer compra de GNL por outros agentes além da Petrobras ou de térmicas ganhadoras de leilões de ele- tricidade. A recente renovação do contrato de gás Brasil-- -Bolívia deveria ter seguido a lógica de mercado, com pre- ços mais baixos. O aditivo contratual prevê uma entrega máxima pela YPFB de 20MMm3/dia e umcompromisso de retirada pe- la Petrobras de 14 MMm3/dia. Como a Petrobras teria um saldo de 28 bilhões de metros cúbicos, pagos e não retira- dos, não está claro se isso redundaria em economias a se- rem repassadas aos consumidores. AArgentina temcontrato coma Bolívia vigente até 2026; no aditamento assinado em fevereiro de 2019, a Bolívia de- veria entregar até o final de 2020, volumes de 11 MMm3/ dia nos meses de janeiro-abril e outubro-dezembro e 18 MMm3/dia de junho-agosto. Ou seja, no verão a Bolívia te- rá compromissos de exportação de 31 MMm3/dia e, no in- verno, de 38milhões dem3/dia.Em janeirode 2020 a Bolívia não teria conseguido cumprir sua obrigação contratual com aArgentina,devido à queda na produçãode 1-2MMm3/dia. Em dezembro de 2019 o governo da Bolívia reviu as re- servas provadas para 253 BCM. Omercado boliviano con- some cerca de 13 MMm3/dia. Se somados às exportações para o Brasil e Argentina, mais os volumes consumidos na produção e transporte de gás, as reservas bolivianas seriam suficientes para um máximo de 12 anos. A produção de shale gas na Argentina deverá desacelerar, fruto da situação econômica e dos preços do petróleo, e o país ficarámais de- pendente de importações. Não está claro se haveria gás adicional na Bolívia pa- ra viabilizar a importação por terceiros no Brasil, uma das premissas do Novo Mercado de Gás. Em consequência, a Petrobras continuaria a dominar a importação de gás. O Brasil deveria acelerar as medidas para aumentar a competição na oferta, através da viabilização do escoamen- to de gás de outros produtores, além de facilitar as trocas operacionais e financeiras de gás e GNL, até para aproveitar a conjuntura de preços baixos no mercado internacional. Esperemos que as incertezas não se prolonguem. No épico de Garcia Marquez, desencontros históricos e expec- tativas fugidias resultaram emmais de 50 anos para a espe- rança frutificar. O GÁS NATURAL NOS TEMPOS DE VÍRUS CORONA

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