Brasil Energia | Ed. 464 - Agosto, 2020
Brasil Energia , nº 464, 31 de agosto de 2020 37 Wagner Victer Wagner Victer é engenheiro, administrador, ex-secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo, e ex-Conselheiro do CNPE O RISCO DA PERDA DA CULTURA ORGANIZACIONAL COM TELETRABALHO Quando o nosso ancestral Homoergaster começou a tra- balhar, utilizando ferramentas rudimentares, feitas de pedras lascadas, não havia um local específico de confecção, as fer- ramentas eram desenvolvidas em qualquer lugar. Passados milhares de anos, na Europa medieval, surgiram as “Casas Compridas”, as “Longhouses”, onde ferreiros, agricultores, criadores de animais e tecelões moravame trabalhavam jun- tos. Já com a Revolução Industrial, as pequenas oficinas do- mésticas deram lugar às grandes fábricas e consequentemen- te as vilas operárias em seus entornos. Mesmo naquele cenário, várias atividades econômicas, como escolas, funerárias, confecções e as próprias lojas co- merciais ainda eram mantidas pelas pessoas em suas pró- prias casas. Como advento da computação, a gigante IBMdesenvol- veu sistemas para automação de escritórios, sendo o primei- ro de grande porte para o governo americano na década de 1960.Aprópria IBM, a partir dos anos 1980, iniciouumpro- cesso de transferência de parte da sua força de trabalho para estações remotas localizadas nas residências dos seus colabo- radores.Os números ficaramgrandiosos e em2009, quando teletrabalho ainda era uma novidade, a IBM já tinha cerca de 40%da sua força de trabalho, com360mil colaboradores ao redor domundo, trabalhandomajoritariamente de casa. Estudos mostravam que a produtividade desses colabo- radores era até superior à dos que trabalhavam nos escritó- rios, e as horas trabalhadas eram também maiores. No en- tanto, esse cenário, aparentemente positivo, escondia uma armadilha fatal: o negócio da IBM dependia fortemente da inovação. Naquele paradigma de teletrabalho, a criação de novos produtos e soluções diminuiu. Por consequência, caiu a par- ticipação da empresa no mercado. Uma das causas aponta- das foi a queda da sensação de pertencimento à organização, e o desinteresse dos colaboradores, as pessoas não se sentiam motivadas a colaborar comprojetos de longo prazo, pois não sentiam segurança de que iriamcontinuar na empresa. Ficou a lição de quemais importante do que ganhar pro- dutividade era ter capacidade criativa para desenvolver no- vas soluções.A existência de umtime de colaboradores com- petentes interagindo presencialmente é fundamental para a inovação.A IBMaprendeu isso da formamais dolorosa, que tambémé amais efetiva, ou seja, a partir de uma grave crise. Como solução, a própria empresa iniciou um processo agressivo de retorno dos colaboradores ao escritório conhe- cido como “OMassacre”. A empresa precisava se adaptar ao novomercado, repletode concorrentes pequenos, ágeis e efe- tivos emprover soluções inovadoras. Ocomponente físico de espaço compartilhado é elemen- to importante de formação, transferência e permanência da Cultura Organizacional. Os colaboradores se veem como agentes importantes e reconhecidos nas interações pessoais no ambiente de trabalho. O famoso “efeito bebedouro”, ou “water cooler”, ou o chamado“espaço do cafezinho”são fun- damentais para a troca de experiências. Na Indústria do Petróleo especialmente, esse convívio pre- sencial, em forma de interação, tem sido nas últimas décadas, fundamental para desenvolver a cultura organizacional de grandes corporações, não só das tradicionais Produtoras de Petróleo, como tambémde empresas de serviços, o que clara- mente as diferencia entre si.Aliás, esse convívio físico tem fun- cionado também como elemento importantíssimo de passa- gem de experiências entre gerações de empregados, criando a identidade e perpetuando omindset da organização. Nessemomento de pandemia daCovid-19, onde algumas organizações especulam como uma oportunidade para redu- çãopermanentede custos o fatode as empresas estaremforça- das, de forma abrupta e por razões sanitárias, a implementar o teletrabalho, o exemplo da IBM serve como uma reflexão. É necessária uma atenção especial à Cultura da Empresa, que deve ser considerada comoumativo intangível e fundamental demuitasorganizações.Afinal,existee semprehaveráumabis- modediferença entreumagrupamentode assalariados euma corporação integrada, que busque ter o sucessoperene.
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