Brasil Energia | Ed. 465 - Outubro, 2020

ENTREVISTA Ricardo Bedregal 80 Brasil Energia , nº 465, 31 de outubro de 2020 nomia mundial e do mercado de petróleo no próximo ano: o grau de contenção ou não da Covid-19. As deci- sões da Opep+, viagens de negócios e turismo e outras variáveis serão moldadas por esse fator abrangente. Qual a cotação do Brent projetada pela IHS Markit no curto prazo? O nosso cenário prevê um retorno lento e gradual dos preços devido aos altos níveis de estoques. É prová- vel que, no curto prazo, tenhamos uma faixa de preço entre US$ 40 e US$ 50, conforme a demanda continue a se normalizar, os estoques comerciais sejam drena- dos dos seus níveis historicamente altos, os países da Opep+ não aumentem suas produções além dos limi- tes do acordo da Aliança de Viena, e que a capacidade ociosa seja reduzida na Arábia Saudita e em outros pa- íses produtores importantes. Por quanto tempo os estoques se manterão em níveis altos? A IHS Markit projeta que o superávit acumulado ao longo do primeiro semestre de 2020 sofrerá uma “ero- são” lenta e já se estima que em 2021 a demanda au- mente em 7 MMbbl/dia, passando de um cenário de superávit enorme de líquidos para um cenário de “défi- cits” médio no ano de 0,8 MMbbl/dia. Quais seriam os impactos de uma eventual eleição de Joe Biden (favorito nas pesquisas para o pleito presidencial norte-americano) para o O&G? O plano de energia de Biden ameaça frontalmen- te as mudanças significativas que ocorreram recen- temente nas políticas para o upstream dos EUA. Em seu “Plano para Mudança Climática e Justiça Am- biental”, Joe Biden prioriza o investimento em ener- gia limpa e também impõe requisitos ambientais e cli- máticos mais rigorosos para a indústria de petróleo e gás. O plano contrasta com a política do atual presi- dente Donald Trump, cuja administração se concen- trou em relaxar as regulamentações ambientais para facilitar os projetos de petróleo e gás. Se eleito, Biden provavelmente retrocederá a maioria das medidas de apoio introduzidas pelo governo Trump nos últimos três anos e imporá obrigações climáticas adicionais ao setor de petróleo e gás. Diante de tal cenário, você considera a possibilidade de aumento do custo fiscal das companhias americanas de pe- tróleo? Num cenário de vitória de Biden, os Estados Uni- dos se comprometerão a alcançar emissões de carbo- no líquidas zero até 2050. Como o foco é a redução da emissão de gases de efeito estufa, isto exigirá análises ambientais adicionais e mais detalhadas para se desen- volver novos projetos de E&P, potencialmente elevan- do os custos desses novos projetos. Há, portanto, uma indicação que haverá aumento da carga fiscal sobre as empresas de E&P, que poderá acarretar na diminuição da competitividade/atratividade dos projetos do E&P americano. Houve debandada das empresas de serviço de pe- tróleo em relação à produção do shale nos EUA. Após a saída da Schlumberger, Weatherford e Baker Hu- ghes, restou a Halliburton como fornecedora global de completação de poços. Estamos diante do fim do shale? Bem, uma coisa é certa, o negócio do shale america- no não morreu. Naturalmente, o grande choque advin- do dos desafios trazidos pela Covid resultou na falên- cia de algumas empresas, mas apenas para uma peque- na fração das empresas que cobrimos nos EUA. Com o preço do petróleo no patamar de US$ 35 - 40, o negó- cio do shale americano encontra-se numa fase de “hi- bernação”, com as empresas redefinindo suas estraté- gias e orçamentos de capital de modo a se adequarem ao seu fluxo de caixa. Somente para se ter uma ideia, a redução média de investimentos em bens de capital caiu cerca de 50%. É possível afirmar, portanto, que houve um esgotamento do “shale boom”? Se o “boom” for definido como sendo um rápido crescimento dos volumes de produção e uma rápida expansão do total de recursos descobertos, bem como “anúncios quase que semanais” de descobertas de no- vos plays geológicos, esse “boom” acabou. Se as mu- danças que ocorreram recentemente tiverem impactos duradouros, principalmente aqueles que afetam a de- manda por óleo, associado a uma curva de preço fu- tura ao redor de US$ 35-40, com bastante certeza não

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