Brasil Energia | Ed. 466 - Dezembro, 2020

32 Brasil Energia , nº 466, 1 de dezembro de 2020 NUCLEAR término da obra e ainda assumir os riscos implícitos da construção. Por conta do impasse, a opção foi seguir um caminho que trata es- ses dois aspectos separadamente. Ou seja, quem vai financiar a con- clusão de Angra 3 não será o mesmo agente que vai assumir o contrato de construção no formato EPC. Com essa definição, Angra 3 saiu da alçada formal do PPI, por- que não haverá mais parceria e, desde a MP 998, assinada em se- tembro último, passou a ter defini- ções aos cuidados do CNPE. Nessa fase atual haverá, inclusive, uma re- visão do valor da tarifa - hoje fixa- da em R$ 480/MWh. Isso porque, ante as mudanças de conceito, é possível que esse patamar diminua. Esse valor já seria competitivo fren- te ao custo superior de usinas tér- micas movidas a óleo. O ONS atu- almente despacha essas plantas fo- ra da ordem de mérito, para poder preservar os reservatórios hidrelé- tricos durante o período de seca. Outro ponto pendente é de que forma a energia gerada por Angra 3 será inserida no SIN. Não está cer- to que seguirá o mesmo modelo de Angra 1 e Angra 2 cuja produ- ção é comprada compulsoriamen- te, rateada em cotas, pelas empresas de distribuição. Lembrando ainda que, em futuro próximo, caso vin- gue a privatização do controle da Eletrobras, o controle da Eletro- nuclear, bem como o da parte na- cional da hidrelétrica Itaipu, deve- rá passar para um ente estatal a ser criado, operação calculada na ca- sa de R$ 4 bilhões. Na MP 998 foi expressa, por exemplo, a intenção do governo de acabar com a con- tratação da energia de reserva. Es- sa questão, bem como o novo va- lor da tarifa, poderá ter definição a partir de uma nova proposta de modelagem na qual o BNDES es- tá atuando, mediante contrato assi- nado com a Eletronuclear. Além da modelagem, o banco também fi- cou encarregado de contratar uma empresa especializada para realizar um trabalho de due diligence , espé- cie de auditoria que vai apontar o estado atual de conformidade das obras já realizadas, uma garantia a mais para o futuro EPCista que da- rá prosseguimento ao projeto. Nesse momento, a Eletrobras viabilizou verba da ordem de R$ 1,05 bilhão para que a Eletronucle- ar dê andamento ao “plano de ace- leração da linha crítica” que, nada mais é do que preparar o canteiro de obras e demais requisitos para que o futuro EPCista encontre todas as condições necessárias para desen- volver seu trabalho, da melhor for- ma possível. Também já está apro- vado um segundo adiantamento, de mais R$ 2,447 bi em 2021. Este valor e o de R$ 1,05 bilhão, estão inclusos no pacote total de R$ 15 bilhões. De acordo com Silva, aliás, ape- sar de ser da década de 1980, o pro- jeto de Angra 3 já passou por um upgrade no que se refere à parte de supervisão e controle. Os sistemas serão totalmente digitais, segun- do o que há de mais moderno no mercado atualmente. Isso vai exigir também a formação de uma nova equipe de operadores – algo que demanda quatro anos de aprendi- zado – além da contratação de ou- tros profissionais, como forma de repor parte do quadro da Eletronu- clear que se retirou da empresa. “Nossa perspectiva é que, em meados de 2021, já se tenha um retrato que dê bastante seguran- ça a potenciais investidores finan- ceiros e empresas de engenha- ria, possibilitando um processo de seleção ao final de 2021 e efe- tivo início das obras em 2022. É um caminho longo pela frente”, avalia Silva. Segundo o executivo, nesse horizonte adiante calcula-se que, para o pleno andamento das obras, o futuro EPCista necessite contratar algo em torno de 2 mil trabalhadores. SERVIÇOS Segue acirrada, em termos mundiais, a disputa por novos mercados entre os principais países fabricantes de equipamentos para geração nuclear, de onde poderão surgir os interessados pela conclu- são de Angra 3. Empresas da Rús- sia, EUA, Coreia do Sul, Japão, Chi- na e França estão de olho tanto em possíveis contratos, como também num eventual programa de ex- pansão por parte do Brasil. Como China e Rússia estão com projetos em articulação na Argentina, Bo- lívia e Venezuela, fontes dão conta de que os Estados Unidos venham a se movimentar em favor de em- presas ocidentais como tentativa de equilibrar o jogo de influências na América do Sul. A rigor, no caso de Angra 3, es- pecialistas entendem que a france- sa Framatome sai em teórica van- tagem porque detém a tecnologia original de concepção da usina, por exemplo. A Framatome comprou, em 1999, a divisão de equipamen- tos de energia nuclear da Siemens, fabricante dos sistemas armazena- dos há décadas no Brasil, ainda à espera da decisão do governo bra- sileiro de prosseguir a construção do empreendimento. n

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