Brasil Energia | Ed. 467 - Fevereiro, 2021

Brasil Energia , nº 467, 1 de fevereiro de 2021 109 Jerson Kelman Jerson Kelman é professor da Coppe-UFRJ e foi o principal dirigente da ANA, Aneel, Light, Enersul e Sabesp. Escreve a cada três meses na Brasil Energia. CINQUENTA TONS DE VERDE Colaborou neste artigo Rafael Kelman, diretor da PSR Energy A pureza do ouro é medida em quilates, sendo 24 quilates o maior valor, que corresponde a 100% de pu- reza. Um ouro com 18 quilates tem 18/24 ou 75% de pureza. De forma análoga, cada kWh entregue a um consumidor industrial de energia elétrica pode ser visto como uma “mistura de elétrons” produzidos tanto por fontes renováveis quanto por fontes não-renováveis. Assim como especialistas atestam a pureza do ouro, a CCEE poderia certificar a porcentagem de energia re- novável contida na “mistura de elétrons” de cada con- sumidor em determinado período a partir de seus con- tratos de compra de energia. A autoprodução também faria parte desta conta, se for o caso. Indústrias que utilizem energia elétrica para produ- zir bens destinados a mercados sensíveis à preocupa- ção com as mudanças climáticas poderiam rotular os seus produtos com base nesses certificados, de forma análoga ao que se faz com a eficiência energética de eletrodomésticos. A certificação ganharia maior relevância se os paí- ses desenvolvidos se interessassem pelo “tom verde” da energia elétrica utilizada na produção industrial. A Alemanha, por exemplo, anunciou um ambicioso pro- grama de 9 bilhões de euros para incentivar o “hidro- gênio verde” produzido pela eletrólise da água, que a decompõe em oxigênio e hidrogênio, pela passagem de uma corrente elétrica proveniente de fontes renováveis. Atualmente mais de 95% do hidrogênio produzido no mundo é “cinza”, por ser extraído de algum hidrocar- boneto, gerando CO 2 no processo. Seria do interesse tanto do Brasil quanto da Alema- nha, assim como dos demais países desenvolvidos, criar um mercado para hidrogênio verde com “pureza” su- perior a, digamos, 75%. O preço seria quase certamen- te inferior a, por exemplo, o da Arábia Saudita, que está construindo a maior usina de hidrogênio verde 100% do mundo com a instalação de 4 GW de solar e eólica, e investimento de US$ 5 bilhões. O custo de produção do hidrogênio verde na Arábia Saudita será inescapavelmente alto por- que o fator de capacidade da geração eólica e so- lar é baixo, mesmo numa região ensolarada. Signi- fica que a planta de eletrólise só conseguirá fun- cionar de forma intermitente. No Brasil as variadas fontes renováveis, principalmente hidrelétricas, re- sultariam num funcionamento quase contínuo. No Nordeste, em particular, seria possível produzir hi- drogênio verde para exportação com “pureza” su- perior a 90%, a custo relativamente baixo (o custo da planta de eletrólise seria diluído por uma maior produção de hidrogênio). Para a Alemanha, a aceitação de hidrogênio verde com pureza acima de 75% significaria substituir maior volume de combustíveis fósseis por energia renovável, sem aumento de dispêndio em relação ao já planejado. Para o Brasil, significaria aproveitar este novo mercado de forma mais competitiva e, possivelmente, a utiliza- ção de hidrogênio verde no transporte e na indústria, com a consequente redução de emissão interna de ga- ses de efeito estufa [1] . Um ganha-ganha! A diplomacia brasileira tem uma oportunidade de ouro (de 24 quilates!) para atuar na defesa dos interes- ses comerciais do país e, ao mesmo tempo, recuperar nosso papel de liderança mundial em temas ambientais. [1] Rafael Kelman et al, Can Brazil become a green H2 powerhouse? Journal of Power and Energy Engineering, 2020, 8

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