Brasil Energia | Ed. 468 - Abril, 2021

Brasil Energia , nº 468, 5 de abril de 2021 63 Luiz Piauhylino Filho Luiz Piauhylino Filho é advogado especialista em Legislação Internacional e sócio-diretor da Sunlution. Escreve a cada dois meses na Brasil Energia. A ENERGIA SOLAR FLUTUANTE NA ROTA DO HIDROGÊNIOVERDE Combustíveis fósseis matam 8,7 milhões de pessoas por ano, afirmam cientistas americanos e ingleses que, re- centemente, publicaram estudos ambientais na Environ- mental Research. Mesmo assim, na contramão global que incentiva iniciativas verdes em busca da descarbonização das fontes de energia, R$ 99,39 bilhões em subsídios fo- ram concedidos no Brasil no ano de 2020 para auxiliar os produtores de petróleo, carvão mineral e gás natural no país, conforme estudo do Inesc (Instituto de Estudos So- cioeconômicos). Como o Brasil pode mudar essa rota desastrosa? Uma das alternativas possíveis e mais debatidas no mundo hoje é o hidrogênio verde. E o Brasil dá os pri- meiros passos nesta direção: o Ceará assinou, no dia 19 de fevereiro de 2021, um memorando de entendi- mento com a multinacional australiana Enegix Energy para a implantação de uma usina de hidrogênio verde no Complexo Portuário e Industrial do Porto do Pecém (Cipp). O valor do investimento é da ordem de US$ 5,4 bilhões. A usina no complexo do Pecém terá uma plan- ta-piloto de eletrólise que utilizará tanto a energia solar quanto a eólica. O método inovador aproveita a água, fonte livre de carbono, para realizar a eletrólise, ou seja, um processo totalmente limpo. Além disso, também es- tá sendo formado um grupo para desenvolver políticas públicas de energias renováveis para viabilizar um hub para o setor no estado. O combustível, todo produzido a partir de fontes de energias renováveis, é apontado como peça-chave no pro- cesso de descarbonização do planeta nos próximos anos. O Brasil tem um potencial gigantesco para produzir e apli- car o hidrogênio verde nos setores de transporte público e de carga, na produção do aço verde, do cimento verde e de fertilizantes. Neste contexto, a geração de energia solar em larga escala fará toda a diferença, pois a produção de hidrogênio verde exige muita energia limpa, toda ela reno- vável e a custos baixos. Nesse processo de ampliação da geração de energia so- lar no país é urgente regulamentar a hibridização das hidre- létricas no Brasil. A expectativa é a de atrair R$ 76 bilhões em investimentos destinados à hibridização das fontes e, as- sim, aumentar a garantia física das hidrelétricas com a ins- talação de painéis fotovoltaicos flutuantes nos reservatórios das usinas. Estamos falando, só neste item, de um aumento de capacidade de 19 GWp, que combinado com a geração de energia hídrica no parque nacional pode ampliar a ca- pacidade instalada atual de 109 gigawatts (GW) para 128 GW. Para se ter uma ideia, hoje, na Amazônia, termelétricas a diesel despejam 3,5 milhões de toneladas de CO2 na at- mosfera, para gerar apenas 475 megawatts (MW) de ener- gia.Além disso, na matriz elétrica brasileira, o petróleo e ou- tras energias fósseis, como o carvão, geram mais de 12.700 MW, ou seja, 7% de toda a energia gerada no Brasil. Essa mudança pode tornar o Brasil o país mais sustentável do mundo, commais de 90% de sua energia sendo gerada por fontes limpas, renováveis e baratas. Com a hibridização das fontes de energia e as substi- tuições das térmicas a óleo e carvão, será possível adicio- nar um total de 31.7 GWp de energia limpa e renovável à matriz elétrica brasileira, sem contar com os projetos eóli- cos e os de geração solar em solo e telhados. A geração de energia limpa, renovável, barata e em lar- ga escala no Brasil impulsionará o surgimento de uma no- va cadeia de valor, a da indústria de produção de hidro- gênio verde, propiciando também um grande impacto so- cial positivo, com a geração de milhares de empregos para atender este novo setor. Com abundância de água e de sol, o Brasil reúne todas as condições para se tornar uma po- tência mundial na produção, utilização e exportação deste combustível renovável e limpo. O hidrogênio verde tende a desempenhar um papel ca- da vez mais relevante na matriz energética global e brasi- leira. A oportunidade está batendo em nossa porta. Basta querer e tomar as decisões corretas e no tempo certo.

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