Brasil Energia | Ed. 477 - Setembro, 2022

10 Brasil Energia , nº 477, 20 de setembro de 2022 Edmar de Almeida Edmar de Almeida é professor (licenciado) do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do IEPUC. Escreve na Brasil Energia a cada quatro meses. As causas da crise do gás são bem conhecidas. Por um la- do, a redução do crescimento da oferta de gás em função da pandemia, fazendo com que a oferta não acompanhasse a recuperação da demanda em 2021; e por outro a guerra da Rússia com a Ucrânia que levou a uma forte redução das ex- portações russas para a Europa, obrigando a Europa a dispu- tar a já escassa oferta mundial de GNL com a Ásia. Esta cri- se se agravou nas últimas semanas. Na sexta-feira dia 25 de agosto,o preço do contrato de gás para setembro nomercado futuro do TTF atingiu os inimagináveis 99,7 dólares por MM- Btu. Por sua vez, os preços dos contratos futuros de outubro de 2022 a março de 2023 ultrapassaram a barreira dos 100 dólares por MMBtu, enquanto o preço do JKM fechou em 68 dólares por MMBtu. Este patamar de preços não apenas é inédito. Eles mos- tramque omercado de gás perdeu a referência comos outros combustíveis neste momento. Isto significa que existem agen- tes dispostos a pagar um preço pelo gás que não tem relação com o seu valor energético intrínseco. Para se ter uma ideia, o preço de equivalência energética do gás natural com o petró- leo seria de 16,53% do preço do Brent (isso porque 1 MM- Btu de gás natural tem a mesma energia que 0,1653 tonela- das de petróleo). Ou seja, se o petróleo está em 100 dólares o barril, o preço do gás não deveria superar os 16,53 dólares por MMBtu, pois a partir deste patamar é mais barato quei- mar óleo combustível que o gás. O patamar de preços atual mostra que a referência agora é o custo do déficit. Ou seja, o cálculo que os consumidores e/ou os governos estão fazendo é qual é o valor da alternativa, e neste momento a alternativa é ficar sem aquecimento no próximo inverno. É evidente que o atual patamar de preços não é sustentá- vel por qualquer ótica que se avalie. Neste patamar de preços, as contas de gás dos consumidores finais são impagáveis e os governos são forçados a criar subsídios, com elevados cus- tos fiscais.Amaioria dos países europeus implementaramme- didas para blindar os consumidores do choque do gás. Mas, os subsídios trazem dois problemas. O primeiro é o aumento do desequilíbrio fiscal e as suas implicações para a inflação e elevação dos juros. De acordo com o FMI, o custo fiscal dos subsídios energéticos até julho atingiu 1% do PIB nos paí- ses europeus de renda alta e 1,7% do PIB nos países de bai- xa renda. Este custo pode aumentar exponencialmente se os atuais patamares de preços se mantiverem nos próximos me- ses. O segundo é que os preços deixam de ser um sinal para o comportamento do consumidor, que continuará consumindo o gás mesmo com os preços de gás em patamares extraordi- nariamente elevados. Mas, quais são as saídas e quanto tempo pode demorar o reequilíbrio do mercado de gás? Basicamente, dois fatores podem afetar o balanço oferta e demanda de gás no mundo. O primeiro é o impacto que a crise do gás pode ter sobre a macroeconomia mundial. Se a economia mundial e, em par- ticular a Europeia e a chinesa, caminhar para uma recessão, o crescimento da demanda de gás pode se reduzir.A demanda mundial de gás vem crescendo emmédia a 2,1%ao ano nos últimos 10 anos, o que representa um crescimento anual de cerca de 100 bilhões demetros cúbicos (bmc).A destruição de demanda pela recessão pode ser um vetor poderoso para re- equilibrar o mercado de gás. Outro fator é o crescimento da oferta de GNL. Isto porque, o ponto focal do desequilíbrio é a Europa, onde os cerca de 160 bmcdegás importadospor gasodutodaRússiadeverãoser subs- tituídos por GNL, pois a única forma de levar mais gás para a Eu- ropa no curto emédio prazos é através doGNL.Aofertamundial deGNL temcrescidoaumritmodeaproximadamente20bmcao ano nos últimos 10 anos. Ou seja, mesmo com uma aceleração forte do crescimento da oferta de GNL, o ajuste demorariamuito tempo se depender apenas do aumento da oferta deGNL. Podemos tirar algumas conclusões sobre a crise atual do mercado mundial de gás: i) tudo indica que o reequilíbrio do mercado mundial será mais lento que o esperado inicialmen- te; ii) a curto prazo este reequilíbrio depende mais do compor- tamento da demanda mundial de gás, ou seja, de uma even- tual recessão da economia mundial; iii) quanto mais demorar o ajuste,maior a probabilidade de que os preços elevados nos mercados spot europeu e do GNL contaminem o restante dos mercadosmundiais de gás,já que estes preços serão vistos co- mo custo de oportunidade para novos contratos. Neste sentido é fundamental decifrar a crise do mercado mundial de gás e se preparar para os seus efeitos na econo- mia e no setor de energia. Omercado de gás está navegando em águas desconhecidas. CRISE INTERNACIONAL DO GÁS: QUAIS SAÍDAS E EM QUANTOTEMPO?

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