Brasil Energia | Ed. 478 - Dezembro, 2022
6 Brasil Energia , nº 478, 1 de dezembro de 2022 Jerson Kelman Jerson Kelman é engenheiro civil e M.Sc. pela UFRJ e Ph.D. pela Colorado State University. Participa dos conselhos de administração da Eneva (como presidente), Evoltz, Iguá e Orizon. Iguá e Orizon. Escreve na Brasil Energia a cada 3 meses. No meio da avalanche de mensagens que recebo dia- riamente, uma me chamou a atenção. Era um e-mail de um grupo de seis alunos do Colégio Eduardo Gomes, em São Caetano do Sul, de 13 e 14 anos, que participam de um torneio organizado por uma ONG norte-americana que incentiva adolescentes a seguirem na área de pes- quisa tecnológica. Solicitavam uma conversa por vídeo sobre perdas não-técnicas de energia elétrica. Confesso que minha primeira reação foi recusar. Porém, notei no convite que a mentora do grupo se chama Gabrie- la, mesmo nome de uma neta de 17 anos que havia venci- do um concurso de robótica. Achei que a meninada tinha chegado a mim por esse caminho e decidi aceitar. Depois descobri que a mentora não era a minha neta, mas não me arrependi porque a conversa foi muito interessante. Supunha que deveria iniciar a conversa esclarecen- do a diferença entre perdas técnicas e não-técnicas, es- sas podendo ser resultantes de furto ou fraude. Nada disso! Eles é que começaram me explicando esses con- ceitos. Depois me contaram que furto e fraude aconte- cem não apenas nas residências dos mais pobres, que compreensivelmente podem não ter alternativa, mas também em bairros de renda média e alta. Discutimos a seguinte questão: por que um cidadão de classe média, que não tolera a desonestidade dos outros, decide furtar eletricidade? Expliquei que é uma questão cultural. O ladrão de eletricidade não se sente desonesto – assim como o sonegador de impostos tam- bém não – porque nossa cultura tolera que os “espertos” se beneficiem, prejudicando toda a coletividade. No caso concreto, quem faz um gato provavelmente aumenta a frequência de apagões de seus vizinhos e certamente au- menta a conta de energia de toda a população honesta. Nesses casos, é preciso focar na educação e na repressão para que os malandros tomem vergonha na cara. Mas…e nas comunidades, onde a população mais po- bre não tem capacidade de pagar a conta? O que fazer? A meninada já tinha uma proposta: instalar placas fotovol- taicas nos tetos das residências para diminuir a conta de luz. Resisti à tentação de explicar as deformações legais e regulatórias associadas à geração distribuída e foquei ape- nas no custo das placas. Quem pagaria? E o que impediria que, frente a uma necessidade premente, a família decidis- se vender as placas, voltando à situação inicial? Me senti um pouco mal por esfriar o ânimo de jo- vens tão espertos e engajados. Engatei uma segunda: que tal instalar medidores pré-pagos nessas comuni- dades assegurando a gratuidade para uma quantidade mínima de energia, suficiente para assegurar uma vida digna? O consumo que ultrapassasse esse mínimo só se viabilizaria se fosse pré-pago. Nesse caso, o consumidor pobre não teria justificativa moral para furtar eletricida- de. Afinal suas necessidades básicas – uma geladeira, algumas lâmpadas, uma TV e um computador – esta- riam asseguradas gratuitamente. Poderia se tornar um consumidor regular, detentor de um conta de luz com seu nome e endereço. Aí foi a vez da meninada me questionar: quem co- briria o custo da energia doada aos mais carentes? Os que podem pagar, respondi. Mas… isso não encarece- ria ainda mais a conta de luz da classe média e alta? Respondi que talvez sim, seria necessário fazer contas. Mas que é preciso levar em consideração que a energia furtada já é paga pelos consumidores honestos. Tanto a que é realmente necessária para atender às necessi- dades básicas quanto a que é desperdiçada. Com a im- plantação do novo sistema, um praticante do furto ou da fraude, que hoje não tem estímulo para economizar energia, possivelmente consumirá mais comedidamen- te quando tiver que pagar pelo excedente ao consumo básico. Ou seja, talvez a conta de luz da classe média e alta venha até a diminuir. A conversa parou aí. A meninada não parecia mui- to convencida de que o caminho sugerido poderia ser a solução. Aliás, eu também não. Não importa. Gostei da conversa porque percebi nos jovens uma intensa von- tade de fazer melhor do que nós, seus pais e avós, fize- mos. E isso me encheu de esperança. UMA CONVERSA COM ADOLESCENTES SOBRE FURTO E FRAUDE
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