Brasil Energia | Ed. 478 - Dezembro, 2022
Brasil Energia , nº 478, 1 de dezembro de 2022 95 C om mais de quatro décadas dedicadas ao setor de car- vão, o engenheiro de minas gaúcho e presidente da As- sociação Brasileira do Carvão Mineral (ABCM), Fernando Zancan, é enfático ao ser perguntado sobre o porquê de tanto tempo dedicado a um setor hoje tão demonizado: “Depois de construí- da, uma usina solar é um deserto, mas quando você olha para Criciúma, você vê toda uma cadeia produtiva e como isso afeta a vida de muitas pessoas. Esta é uma razão para lutar e crescer”. Esta fala reflete o alívio de ter, após quase uma década de luta, conseguido garantir a sobrevida de parte do setor car- bonífero frente ao avanço das renováveis: em janeiro a ABCM, enfim, pôde contar com um resultado concreto com a aprova- ção do Programa de Transição Energética Justa (TEJ), que vai levar à contratação de energia de reserva do complexo Jorge La- cerda, de 857MW, em Santa Catarina, pe- lo menos até 2040. Além da sobrevida dada ao comple- xo, a lei determinou a criação de um ar- ranjo de P&D e produtivo que deve ge- rar novos usos, como energético ou in- sumo para outros produtos, para o car- vão da região, hoje considerado o inimi- go número um do combate às emissões de CO 2 e ao aquecimento global. Enquanto a Europa e os Estados Uni- dos começaram a desligar e substituir as usinas a carvão mineral há mais de duas décadas, o Brasil – com sua ma- triz de base hídrica e renovável – resol- veu se juntar a alguns países asiáticos e manter estas usinas em funcionamento por mais duas décadas, evitando o des- ligamento que era previsto para 2027, quando o subsídio da Conta de Desen- volvimento Energético (CDE) está pro- gramado para terminar. Estamos falando de 13 usinas com capacidade total de 3,1GW, ou 1,7% da capacidade de geração total nacio- nal, que injetam energia no SIN e ga- rantem autogeração de grandes grupos metalúrgicos. No entanto, mesmo que Jorge La- cerda ganhe uma sobrevida, aban- donar o carvão como energético já é uma decisão tomada por praticamen- te todas as empresas que usam esta fonte, desde que o Brasil se compro- meteu a ser carbono neutro em 2050, meta reafirmada em 2021 pelo gover- no na COP26 em Glasgow, na Escó- cia, no ano passado. A Alunorte, que conta com uma usina de 103MW, já começou a substituir as cal- deiras a carvão por elétricas alimentadas pela rede e por parques eólicos e solares do grupo controlador escandinavo Hydro;
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