Brasil Energia | Ed. 481 - Junho, 2023

Brasil Energia, nº 481, 13 de junho de 2023 17 Bruno Armbrust é sócio fundador da ARM Consultoria, ex-presidente do grupo Naturgy na Itália de 2004 a 2007 e no Brasil de 2007 a 2019. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses. Bruno Armbrust Embora ainda não se vislumbre um cená- rio claro para o fim da crise entre a Rússia e a Ucrânia, o cenário esperado de um período mais prolongado de baixo crescimento mundial tem contribuído para uma menor pressão so- bre os preços do petróleo e do gás. O petróleo tipo Brent, que indexa muitos contratos de gás e já esteve acima de 125 US$/bbl, parece, mesmo com o corte da produção anunciado pela Opep, querer es- tacionar na faixa entre 70–80 US$/bbl. Já o TTF, muito usado na UE, que chegou a cus- tar mais de 100 US$/MBtu e o JKM, que che- gou a 70 US$/MBtu no auge na crise, se si- tuavam, ambos, nos últimos tempos na faixa dos 11 a 12 US$/MBtu. Os elevados preços do petróleo e do gás parecem ter ficado, momentaneamente, pa- ra trás. O balanço entre a oferta x demanda, mantido o cenário geopolítico atual, deverá ser o condicionante principal dos preços do gás no médio e longo prazo, indicando os ce- nários mais prováveis. Do lado da demanda, apesar do fim de sua política austera de lockdown, não parece que a China será mais o grande motor propulsor do crescimento mundial. No restante dos países, os cenários de estagnação econômica ou de baixo crescimento vão indicando que não de- verá, no médio prazo, ocorrer taxas de cresci- mentos representativos no mundo. Recentemente foram publicados dados dos países membros da OCDE – Organização pa- ra a Cooperação e Desenvolvimento Econômi- co, que é formada pelos países desenvolvidos, chamada por alguns de Clube dos Ricos. E os números divulgados demonstraram que o con- sumo anual de gás natural nestes países vem caindo, enquanto a produção de gás apresen- tou um ligeiro incremento. Segregando os dados de consumo da OCDE entre Ásia, Europa e Américas, se percebe que os piores números vieram da Europa, região mais afetada com a guerra, que de 2019 até a atualidade reduziu seu consumo em cerca de 100 bcma, volume equivalente ao consumo de gás natural do Brasil, incluindo térmicas full. Ainda que se espere que o cenário de cur- to prazo da oferta de gás e eventuais ações da Opep de corte de produção continuem pressionando os preços no curto prazo, o bai- xo crescimento mundial deverá pressionar no sentido contrário. Já no que se refere ao médio e longo prazo, a demanda por gás natural deverá se ver afe- tada por iniciativas de descarbonização a par- tir do aumento nos usos de fontes renováveis vindos de vários países, o que terá um grande potencial de reduzir a demanda por gás natural nos próximos anos. Na União Europeia, novas diretrizes para fo- mentar uso de fontes renováveis, como o bio- metano, com metas até 2030, estão sendo lançadas e terão caráter vinculante para to- dos os países membros com potencial de re- dução significativa da demanda por gás natu- ral que será substituída por gases renováveis. Outros países como o Japão parece que irão pelo mesmo caminho. Já do lado da oferta, a perspectiva de incremento nas exportações de GNL vindo de países como o Qatar e EUA a partir de 2025 deverá contribuir para a redução dos preços do gás. Essa combinação de maior oferta e estag- nação da demanda terá potencial para reduzir os atuais preços do gás nos próximos anos e uma análise dessa combinação de fatores é de fundamental importância nesse momen- to em que se vê a Petrobras assinando recen- temente contratos de longo prazo com as O mercado de gás natural e os contratos de longo prazo. Oportunidade ou armadilha?

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