Brasil Energia | Ed. 481 - Junho, 2023
Brasil Energia, nº 481, 13 de junho de 2023 43 Heitor Paiva atua com inteligência de mercado e pesquisa no mercado de câmbio e commodities, principalmente através de análise fundamentalista aplicada às commodities energéticas. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses Heitor Paiva O mercado de commodities é muito volá- til e, em alguns momentos, os preços cotados nas bolsas podem não refletir os fundamentos de oferta e demanda. Isto se deve à chama- da financeirização – que, por definição, é o au- mento da relevância de instrumentos financei- ros na formação de preços das matérias-pri- mas. Em um grau que, a depender da conjuntu- ra macroeconômica, pode escantear a influên- cia que aspectos de disponibilidade e consu- mo destes ativos têm em seus preços. Para se ter uma noção, o número de contratos em aberto em futuros e opções de petróleo ne- gociados nas bolsas de Nova Iorque e Londres corresponde a um volume mais que 30 vezes maior que a produção diária da commodity. Por este motivo, fatores psicológicos dos traders de Wall Street ou da City londrina têm a capacida- de de fazer mais preço do que os dados normal- mente analisados pelos analistas – sendo eles o nível de produção, consumo e estoques das commodities – principalmente as energéticas, como o petróleo e derivados. É fato que, na maioria das vezes, a mentalida- de dos traders está em linha com os fundamen- tos de oferta e demanda. Ou seja, quando há uma escassez de óleo, os preços dos futuros sobem – e vice-versa. Entretanto, há momentos em que se passa uma divergência e, por mais que o mer- cado “real” de petróleo e derivados aponte para um sentido, os preços nas bolsas seguem uma outra direção. E parece ser exatamente isto que se passa no momento atual com as commodi- ties energéticas: um descolamento do mercado futuro com o físico. Por mais que a Opep+ tenha anunciado um cor- te de mais de 1 milhão de barris por dia, a partir de maio, e que a indústria do upstream sofra com au- mento nos custos de produção e baixo investimen- tos, os futuros do Brent têm caído mais de 10% desde o início do ano. E o porquê disto? Porque a percepção em relação ao futuro, por parte da co- munidade financeira, está pessimista. Ou seja, os fundamentos macroeconômicos estão tão nega- tivos que, de certa forma, se sobressaem aos as- pectos relacionados à oferta e demanda – que ja- mais justificariam tamanhas derrocadas vistas com as cotações das commodities energéticas. Por exemplo, a questão dos bancos regio- nais nos EUA, juntamente a uma decepcionante reabertura da China, ofusca as perspectivas de crescimento econômico de curto prazo. Sendo o petróleo e os derivados commodities cuja de- manda cresce pari passu à economia global, não há motivos para esperar que o preço suba, não é mesmo? Na verdade, não necessariamente. Isto porque existem problemas estruturais re- lacionados à oferta que não devem ser esqueci- dos. Capex continua globalmente baixo nas ati- vidades de exploração e produção – e, por mais que as grandes petrolíferas tenham anunciado um aumento nos investimentos, a inflação pre- sente nos campos petrolíferos, somada à escas- sez de mão de obra global, cria um cenário no qual o aumento do investimento mais repõe cus- to do que, obrigatoriamente, cria condições de aumento de oferta. Olhando para a frente, as indicações macro continuam preocupantes – o que, por sua vez, deve fazer com que o otimismo da comunidade financeira pelas commodities energéticas per- maneça baixo. Bancos centrais estão começan- do a alterar o curso de alta dos juros – mas as condições financeiras restritas não irão embora da noite para o dia. É natural que a política mo- netária demoremeses para surtir efeito. Portanto, as condições para um descolamento prolonga- do do mercado físico de petróleo com o de futu- ros continuam intactas – levando à volatilidade e pessimismo no curto prazo. A financeirização diminui importância da oferta e demanda na precificação do petróleo
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