Brasil Energia, nº 488, 20 de setembro de 2024 113 Bruna de Souza Moraes é pesquisadora e coordenadora do Nipe/Unicamp, engenheira de Alimentos, mestre e doutora em Ciências da Engenharia. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Bruna de Souza Moraes Resíduos sólidos urbanos: uma oportunidade jogada fora no Brasil O Brasil está entre os maiores geradores de resíduos sólidos urbanos (RSU) do mundo: em 2022 foram gerados cerca de 80 milhões de toneladas, segundo levantamentos da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Tradicionalmente os resíduos são vistos como lixo, o que reflete no seu baixo aproveitamento e destinação inadequada no país. Somente 4% dos RSU são reciclados, sendo o restante encaminhado para os aterros sanitários e até lixões a céu aberto, estes últimos que, mesmo após 14 anos da implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS – instituída pela Lei Federal nº 12.305, de 2 de agosto de 2010), ainda representam quase 40% da destinação final no Brasil. A partir do momento em que os resíduos são vistos como uma oportunidade para geração de bioenergia e bioprodutos de valor agregado, tem-se um cenário completamente diferente. Podemos tomar como exemplos países desenvolvidos, como Alemanha, Suécia e Japão, que são referência mundial na gestão sustentável e eficiente de resíduos, se pautando em políticas públicas progressivas, desenvolvendo e implementando infraestrutura de ponta para coleta, tratamento e disposição, e estabelecendo metas factíveis pautadas em um bom planejamento. Nestes países os resíduos são segregados na fonte desde as décadas de 80 ou 90, o que facilita sobremaneira o processo de reciclagem e o aproveitamento da fração orgânica. E lixo é considerado somente a parcela do resíduo que não é passível de nenhum tipo de aproveitamento e, somente nestes casos, pode ser aterrada. Ainda assim, passando por um tratamento prévio (mecânico-biológico ou térmico) para evitar impactos ambientais do aterramento. No caso da Alemanha, dados do Federal Statistical Office (Destatis) apontaram uma taxa de reciclagem de RSU de quase 70% no país, enquanto a fração orgânica é aproveitada em processos de compostagem ou em processos Waste-to-Energy (W2E), como incineração e a produção de biogás por meio da digestão anaeróbia, sendo os usos energéticos normalmente na forma térmica ou elétrica. No caso do biogás, vem crescendo também sua purificação a biometano (cerca de 15% do total de biogás produzido em 2021, segundo a European Biogas Association – EBA), utilizado como biocombustível similar ao gás natural, porém de origem renovável. E além do produto gasoso, a digestão anaeróbia produz o biodigerido (ou digestato), que é utilizado como biofertilizante ou melhorador de solos majoritariamente na agricultura (97%), mas também em outros setores, como paisagismo. Nestes países observa-se que a taxa de geração dos resíduos é acompanhada da oferta da infraestrutura necessária para uma gestão
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