Brasil Energia, nº 488, 20 de setembro de 2024 85 Paulo Cunha é economista e sócio-diretor da Sempi Consultoria e consultor sênior da Fundação Getulio Vargas. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Paulo Cunha O inevitável caminho da eletrificação Os modos de produzir, disponibilizar ou utilizar energia são indiscutivelmente os principais responsáveis pelas emissões dos gases de efeito estufa no planeta. A óbvia decorrência dessa constatação é que nesses segmentos devem se concentrar os esforços para a mitigação desse efeito. Nesse sentido sobressai o conceito de integração energética como pano de fundo para a eficientização global da indústria da energia e a consequente redução das referidas emissões. A parte mais simples desse desafio, apesar da magnitude dos obstáculos técnicos e econômicos, encontra-se em marcha: substituir em larga escala as fontes fósseis por renováveis na produção de eletricidade. Ela vem sendo endereçada através da disruptiva penetração das fontes eólica e, principalmente, solar nos sistemas elétricos. Primeiro passo na dramática busca pela descarbonização, necessária e urgente pelas razões climáticas fartamente conhecidas. Em paralelo, observa-se a progressiva eletrificação das atividades com vistas a ampliar o alcance do atendimento energético oriundo de fontes de baixo carbono. Essa eletrificação ocorre de maneira direta, onde se utiliza a eletricidade como substituto dos combustíveis fósseis em aplicações de uso final nos transportes, aplicações prediais ou nos processos industriais, quando possível. A alternativa para os segmentos mais refratários à eletrificação direta é a modalidade indireta, onde a eletricidade comparece como insumo para a sua conversão num vetor energético, conforme se apresenta na nascente indústria do hidrogênio verde, obtido a partir de eletrólise da água. Também integram o rol de soluções os carregadores químicos associados a essa rota tecnológica, a exemplo do metanol ou da amônia, bem como a produção de combustíveis sintéticos. Em face dessas ambições, mais que nunca será necessária a integração entre os vários segmentos da indústria da energia. Ganham relevância os papéis dos usuários, principalmente nas modalidades de geração e armazenamento distribuídos, bem como nos arranjos para resposta da demanda e aumento da eficiência energética nos usos finais. Espera-se o engajamento dos novos prossumidores1, atuando isoladamente ou por meio de agentes agregadores capazes de potencializar o efeito de seus comportamentos nas “usinas virtuais2”. Acaba de ser publicado pela Comissão Europeia o “Estudo sobre a promoção da integração do sistema energético através do papel crescente da eletricidade renovável, dos ativos descentralizados e do hidrogênio”3. Relatório que avalia o status da “Estratégia de Integração do Sistema Energético da União Europeia”, formulada em 2020, propondo medidas políticas e legislativas para moldar gradualmente um novo sistema energético. Destaca sobretudo os desafios que deverão ser
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=