e-revista Brasil Energia 488

Brasil Energia, nº 488, 20 de setembro de 2024 99 Paula Kovarsky, engenheira mecânica e de produção, com MBA em finanças corporativas, é VP na Raízen. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Paula Kovarsky Será que o ESG morreu? Não faz muito tempo, ESG se tornou figurinha fácil em qualquer conversa de mercado, a varinha de condão que resolveria todos os problemas, prometendo alinhar o lucro das empresas com um propósito. Investidores, gestores e companhias de todos os portes abraçaram a causa, acreditando que estavam no caminho certo para salvar o mundo e, de quebra, seus balanços. Era o fim do dilema “ganhar dinheiro” versus “fazer o bem” e um prato cheio para governos e políticos, representando uma oportunidade de evolução do capitalismo na sua função social. Prato feito para os exageros que se seguiram. Falando especificamente das questões ambientais e do tema de mudanças climáticas, o mundo rapidamente se comprometeu com soluções quase mágicas como acabar com a indústria de petróleo ou eletrificar o planeta, sem pensar nos desafios de implementação e suas consequências. Da mesma forma, investidores e bancos rapidamente se transformaram em vocais defensores da bandeira verde sem rever, de maneira concreta, seus critérios de alocação de capital ou de avaliação de risco de crédito. Enquanto isso, grandes programas de incentivo foram desenhados pelos governos dos países mais ricos, reforçando seu compromisso com a descarbonização, sem perder de vista o potencial de desenvolvimento das respectivas indústrias locais ou achando uma boa desculpa para justificar políticas mais protecionistas, enquanto os países mais pobres seguiram na tentativa de achar financiamento para suas iniciativas. Quem sabe uma avaliação mais perversa? A humanidade se defrontava com uma pandemia sem precedentes na história, momento certo para dar valor ao que dizia a ciência e levar a sério o tema de mudanças climáticas. Mas também estávamos todos confinados em nossas casas sem saber quando o pesadelo acabaria, o que se traduzia naquele momento em queda vertiginosa do consumo de combustíveis e energia pelo menos na indústria e comércio, boom das vendas online, boom de comunicação remota e consumo de streaming. Traduzindo em calls: portfólios que estivessem short em petróleo e energia e long em tecnologia (e, portanto, comprometidos com a agenda de baixo carbono) deveriam ser os grandes vencedores – estava fácil ser ESG! Como se diz por aí, felicidade é igual a expectativa menos realidade. As expectativas estavam claramente exageradas. Mas a realidade não fez por menos: a demanda se recuperou mais rápido ancorando inflação global, os desafios tecnológicos estavam subestimados, custo de capital aumentou vertiginosamente, guerra na Ucrânia, competição com alimentos, risco de recessão, eleições, guerra no Oriente Médio. Resultado, a tal felicidade se transformou em depressão. E pior, pegou o mercado despreparado, talvez iludido por um efeito momentâneo de leveza de consciência, ou acreditando que certificações padronizadas, com uma mentalidade de checklist e muito mais focadas em processo de reporte e transparência do que em planos sustentáveis de desenvolvimento de soluções seriam garantia de retorno. Exemplo. Me chamou atenção nas últimas semanas a atitude de empresas brasileiras que levantam a bandeira do ESG, sendo bem avaliadas pelo mercado nesse quesito, nas discussões relativas ao Renovabio, nosso exem-

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