100 Brasil Energia, nº 488, 20 de setembro de 2024 Continuação Paula Kovarsky plo de mercado de carbono em pleno funcionamento no Brasil. Não é a primeira vez que se questiona as metas de compra de CBios impostas às distribuidoras de combustíveis. Mas se antes o argumento (matematicamente equivocado como já discuti nesta coluna em outra oportunidade) era de aumento relevante de preço para o consumidor final, a tese agora está ancorada na perda de competitividade em função da inadimplência na aposentadoria dos CBios de certos participantes, velhos conhecidos da indústria e do governo por este tipo de prática no setor. A inadimplência chega hoje a assustadores 20% da meta estabelecida. Ao invés de pressionar ainda mais por fiscalização e punição pela inadimplência ou evasão fiscal, problema crônico que vai muito além do Renovabio, empresas sérias têm apelado ao Judiciário por liminares para relaxamento de suas próprias obrigações, alegando perda de competitividade, com risco de comprometer a integridade de um programa de descarbonização tão eficiente e bem estruturado, regido por regras transparentes de mercado. Sigo firme na minha convicção de que sustentabilidade financeira é parte integrante da gestão responsável de qualquer empresa, de qualquer cidade, estado ou país. Mais ainda acredito que, via de regra, incentivos econômicos corretos são a forma mais eficiente de fazer com que decisões economicamente viáveis e, portanto, sustentáveis, sejam tomadas. Mas daí a mudar de ideia ou advogar em causa própria porque o call deu errado, o bolso apertou ou a maré virou contra são outros quinhentos. E ainda por cima chamar isso de ESG, boa gestão ou compromisso com sustentabilidade fica ainda pior. Enfim, ajustadas as expectativas, exageros e excessos de qualquer natureza, cabe voltar à questão central e real nessa discussão: a escalada visível dos impactos das mudanças climáticas, que se tornam cada vez mais corriqueiros e mais visíveis: secas, alagamentos, ondas de frio e calor fora de época, geadas, quebras de safra, dois anos seguidos de temperaturas nas suas máximas históricas, sequências climáticas estatisticamente impensáveis em outros tempos, e perdas gigantescas de dinheiro e principalmente de vidas. Qualidade ou transparência de um reporte não podem jamais se sobrepor às iniciativas concretas, reais e eficientes de criar soluções justas e viáveis para promover a descarbonização global. A verdade é que se o mundo real reagisse com a mesma intensidade e com os mesmos exageros do mercado financeiro, morreríamos todos de enfarte e as mudanças climáticas não seriam mais uma questão. Sustentabilidade é assunto sério, urgente, requer compromisso, e não vai morrer tão cedo. *https://www.youtube.com/watch?v=hMW_pT7w-Y8 Sustentabilidade é assunto sério, urgente, requer compromisso, e não vai morrer tão cedo
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=