Brasil Energia, nº 493, 28 de abril de 2025 39 Luiz Eduardo Barata Luiz Eduardo Barata é presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia e do Instituto dos Consumidores de Energia. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses. Consagraram o Brasil como aquela terra fértil em que se plantando tudo dá. Na época da colonização, o que espantava os grandes navegadores eram as riquezas naturais e a possibilidade dos mais diversos cultivos. Tanto potencial não garantiu que os brasileiros escapassem do subdesenvolvimento. O século XXI trouxe uma nova configuração desse velho dilema. Hoje, o mundo inveja a matriz elétrica brasileira 90% renovável, a abundância de energia solar e eólica, a capacidade de produção de hidrogênio verde, a pujança hidrelétrica e todos os mais variados sortimentos de fontes limpas e baratas disponíveis por aqui. Tanto potencial continua não garantindo que os brasileiros escapem da energia cara que resulta em desigualdade social e pobreza energética. A grande lição que o Brasil pode dar ao resto do mundo neste ano de COP30 é sobre os desafios e as armadilhas que uma matriz altamente renovável pode trazer para um país que não sabe geri-la. À comunidade europeia, aos norte-americanos, à China, ao Mercosul o que podemos afirmar é que ser renovável não significa ser sustentável. Temos energia limpa de sobra, mas o sistema elétrico brasileiro não tem sustentabilidade. Se com uma andorinha só, não se faz verão, podemos concluir que apenas com energia renovável, não se faz transição. Nosso país descarta energia solar, eólica e hidrelétrica para manter em operação usinas a gás natural e carvão, contratadas com inflexibilidade operacional. Temos uma esplêndida insolação, mas dispensamos a possibilidade de uso do horário de verão por razões ideológicas ou apego a costumes. Mesmo com tantas possibilidades, ainda escolhemos queimar diesel e óleos vegetais (os mais caros e poluentes) para gerar energia de má qualidade nas centenas de sistemas isolados localizados no pulmão da Amazônia e pagamos quase R$12 bilhões por isso em 2024. Na Região Amazônica, comunidades inteiras reféns da pobreza energética, com poucas horas por dia de energia gerada a diesel, vivem nas adjacências de usinas hidrelétricas. Quanta ironia. No Sul do país, empresas e políticos querem convencer a opinião pública de que a geração de energia a carvão é essencial, enquanto o mundo caminha na direção contrária. Degradação ambiental, alto custo mantidos ainda pelo interesse econômico de poucos e subserviência política de autoridades. Distorções na regulação fazem com que pessoas pobres financiem painéis fotovoltaicos no telhado de famílias de classe média e alta. Por falta de planejamento e organização, produtores de energia solar e eólica produzem energia onde consideram mais conveniente, não necessariamente onde há consumo. Nosso regramento setorial não casa produção e demanda o que implica em cortes de geração – “curtailment”. Cada empreendedor produz onde prefere, depois corre atrás de seus direitos, judicializa e, no final, caberá aos consumidores pagar essa conta. Todos os setores da economia buscam caminhos para se descarbonizar, tentam rever processos produtivos, investem em inovação, debatem metas ambientais. Sem gestão não se faz transição: eis o grande desafio do Brasil Continue lendo esse artigo em: energia/sem-gestao-nao-se-faz-transicaoeis-o-grande-desafio-do-brasil
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