Brasil Energia, nº 493, 28 de abril de 2025 79 Claudia Bethlem é bióloga com 20 anos de experiência em biodiversidade e sustentabilidade. É consultora na Descarbonize e In Carbon. Escreve na Brasil Energia mensalmente. Claudia Bethlem Em meio à corrida por soluções tecnológicas para conter a crise climática, a notícia que mais me animou nos últimos anos não envolveu satélites, inteligência artificial ou megaprojetos industriais. Foi algo muito mais simples e poderoso: Paris vai plantar 170 mil árvores ainda em 2025. E por quê? Porque elas são, comprovadamente, a melhor resposta para o calor extremo, a perda de biodiversidade e a desorganização hídrica nas cidades. Enquanto outras tecnologias ainda precisam evoluir bastante para aplicação em escala até 2030, as Soluções Baseadas na Natureza (NbS) já estão disponíveis, custam menos e oferecem resultados múltiplos. Elas restauram ecossistemas, sequestram carbono, reduzem riscos climáticos, geram empregos na bioeconomia e fortalecem a biodiversidade. No Brasil, elas representam não só uma oportunidade, mas talvez a única via realista e viável de alcançar a neutralidade climática nas próximas décadas. Segundo o Ipam Amazônia, proteger e restaurar ecossistemas é a medida mais custo-efetiva para o Brasil atingir o net-zero até 2050. O simples cumprimento do Código Florestal poderia reduzir 38% das emissões líquidas do país até lá. Se combinado com o fim do desmatamento ilegal e restauração em larga escala, o país estaria bem mais perto de suas metas. É aqui que o setor de energia brasileiro pode desempenhar papel transformador. Algumas iniciativas já vêm testando modelos de regeneração costeira com manguezais e recuperação de áreas degradadas, tanto para sequestrar carbono como para mitigar riscos operacionais causados por eventos extremos. E mais: projetos desse tipo podem gerar créditos de biodiversidade e carbono, agregar valor reputacional e atender a novas exigências como a TNFD (The Taskforce on Nature- -related Financial Disclosures), que demanda transparência sobre impactos à natureza. Há também uma força de mercado crescente: investidores e consumidores estão cada vez mais atentos à relação das empresas com o meio ambiente. Incorporar NbS aos planos de transição energética é, portanto, uma estratégia inteligente e alinhada com as expectativas globais. NbS ajudam a reduzir emissões residuais, aumentam a resiliência dos ativos energéticos e oferecem retorno ambiental e social em curto prazo. Exemplos globais mostram que a tendência é irreversível, a redução da temperatura urbana diminui a pressão no setor de energia para resfriamento dos ambientes: Singapura vai plantar um milhão de árvores até 2030; Seul criou florestas urbanas para canalizar ventos frescos e reduzir o calor nas ruas; Londres quer que metade de sua área seja verde até 2050. E Curitiba, no Brasil, é uma referência de décadas, com parques alagáveis que controlam enchentes, melhoram o clima urbano e garantem qualidade de vida. Soluções baseadas na natureza não são uma alternativa: são o caminho. Estão prontas, são acessíveis, multifuncionais e adaptáveis. O Brasil tem território, biodiversidade e conhecimento técnico para liderar essa transformação. Falta apenas a decisão estratégica — e o setor de energia pode contribuir de maneira consistente nessa direção. Soluções Baseadas na Natureza: o caminho mais realista
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