e-revista Brasil Energia 495

Brasil Energia, nº 495, 30 de junho de 2025 89 Claudia Bethlem é bióloga com 20 anos de experiência em biodiversidade e sustentabilidade. É consultora na Descarbonize e In Carbon. Escreve na Brasil Energia mensalmente. Claudia Bethlem Manguezais, carbono azul e justiça climática. O que significam? A regeneração de manguezais é uma das estratégias mais eficazes para enfrentar os desafios combinados da crise climática, da segurança alimentar e da conservação da biodiversidade. Esses ecossistemas capturam até quatro vezes mais carbono por hectare do que florestas tropicais maduras, como por exemplo florestas na Amazônia ou na Mata Atlântica, apresentando um dos maiores potenciais de estoque de carbono entre todas as soluções baseadas na natureza até agora estudadas. Além do sequestro de carbono, os manguezais são berçários naturais, fundamentais para a reprodução de peixes, crustáceos e moluscos, muitos deles base da pesca artesanal e da segurança alimentar de comunidades tradicionais costeiras. Sua vegetação forma redes de raízes que abrigam diversas espécies de animais, formando corredores ecológicos entre ambientes marinhos, estuarinos e terrestres. A destruição desses ecossistemas - causada por pressão urbana, poluição e conversão para outros usos - ameaça diretamente o equilíbrio ecológico e a vida de milhares de famílias que dependem deles. Regenerar manguezais, portanto, é também proteger modos de vida, culturas e territórios costeiros. Na Guiné-Bissau, atuei em um projeto GEF onde os manguezais foram estratégias essenciais para a adaptação climática. Com o avanço do mar sobre áreas agrícolas tradicionais, os campos de arroz, derivou-se em uma emergência alimentar na região. Como medida mitigadora, foi necessário a construção de comportas e a restauração natural dos manguezais que em pouco tempo começou a conter a salinização do solo e assim, a volta dos campos de arroz. Paralelamente, desenvolvemos cadeias de valor de outros produtos locais, ampliando a segurança alimentar e a resiliência das comunidades. Esse tipo de abordagem integrada é compatível com a modalidade de soluções baseadas na natureza de Aforestation, Reforestation & Restoration (ARR), uma estratégia validada para projetos de carbono azul. Ao favorecer a regeneração natural, sem necessidade de intenso plantio, processos ecológicos locais são respeitados - como maré, sedimentação e sucessão vegetal - e o custo operacional é menor. Em três anos, já é possível observar recuperação funcional da vegetação e impactos positivos no sequestro de carbono e nos serviços ecossistêmicos. A experiência mostra que projetos bem-sucedidos não dependem apenas da técnica. O diálogo com as comunidades locais, a articulação com o poder público e o engajamento com múltiplos atores são fundamentais. Em muitos territórios, o manguezal é também um espaço simbólico, entrelaçado à memória, à espiritualidade, à alimentação e à vida cotidiana. É nesse contexto que surge a importância de alinhar pensamento, fala e ação, ou seja, de garantir a congruência entre o propósito declarado e as práticas adotadas em campo. Projetos que visam apenas retorno comercial tendem a não prosperar quando enfrentam a desconfiança das comunidades. As pessoas são simples, mas não são ingênuas. Continue lendo esse artigo em: /energia/a-urgencia-da-descarbonizacao-esuas-incoerencias

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