Brasil Energia, nº 502, 30 de abril de 2026 103 Paula Kovarsky, engenheira mecânica e de produção, com MBA em finanças corporativas. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Paula Kovarsky Vai Sobrar Etanol. Estamos nos Planejando Direito? Uma análise sobre as perspectivas dos mercados do etanol, do deslocamento da gasolina e suas perspectivas de exportação e as consequências para ambos combustíveis ante a penetração dos elétricos Nos próximos anos o Brasil pode ter que enfrentar um excesso relevante de oferta de etanol em função de uma combinação de fatores: otimismo na demanda, pessimismo na oferta e a boa e velha lógica brasileira de que vantagem competitiva se transforma em dinheiro sem precisar de organização ou planejamento. Do lado da oferta, o crescimento acelerado da produção de etanol de milho precisa ser bem entendido. O setor sucroalcoleiro, que historicamente dominou esse mercado, demorou para entender que os fundamentos econômicos da indústria de etanol de milho são bem diferentes. Num primeiro momento, muito se falava do risco de descasamento dos preços de milho, que seguem uma dinâmica global de commodity agrícola, dos preços locais de etanol, ditados pela relação energética com os preços de gasolina, que por sua vez seguem paridade de importação desse combustível no Brasil; exclui-se dessa lógica os momentos de uso dos preços de gasolina como instrumento de política energética e o uso de médias em momentos de grande volatilidade dos preços internacionais ou câmbio. A realidade, no entanto, mostrou que a correlação entre preços de milho e etanol tem se mostrado alta desde 2018. O que realmente fez e provavelmente continuará fazendo a diferença para o economics do etanol de milho, explicando o crescimento exponencial da produção nos últimos anos, bem como dos aumentos de capacidade já anunciados e outros que provavelmente virão, tem muito menos a ver com os preços do etanol do que se poderia imaginar. A produção de milho no Brasil é extremamente eficiente em vários aspectos, tendo crescido mais de 5% ao ano na última década (fonte: Conab). Uma parte cada vez mais relevante da produção de milho é segunda safra (mais de 75%, fonte: Conab e USDA), por vezes terceira (principalmente no norte e nordeste) em uma mesma área produtiva em um mesmo ano. No centro-oeste do país, maior produtor de milho, essa cultura é complementar à produção de soja. Além de maximizar o uso da terra, diluindo os custos de arrendamento, máquinas e mão de obra, ou dobrar o giro do ativo em caso de terra própria, a rotação de culturas ajuda na proteção do solo e diminuição de pragas. Essa característica faz com que o argumento de competição com alimentos por uso da terra seja fraco, entendimento que tem avançado internacionalmente, melhorando a pontuação do etanol de milho em potencial de descarbonização. Esse assunto ainda não está totalmente consolidado das discussões internacionais, mas a expectativa é de que a intensidade de carbono (CI) do etanol de milho brasileiro fique em média entre 18 e 26 gCO2/MJ (a depender da metodologia), enquanto o CI do etanol de cana esteja entre 16 e 21 gCO2/MJ (fonte: Renovabio, Nature, Unicamp). Continue lendo esse artigo em: /vai-sobrar-etanol-estamos-nosplanejando-direito-para-isso
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