e-revista Brasil Energia 504

Brasil Energia, nº 504, 30 de junho de 2026 43 Não faz sentido exigir disponibilidade de transporte 24 horas por dia para um fluxo de gás que só será necessário poucas horas por dia, para produção de energia elétrica no horário de máxima demanda Interface entre os setores de gás e de energia elétrica A recente correspondência enviada pela ATGás (Associação de Empresas de Transporte de Gás por Gasodutos) à Aneel, apontando uma defasagem de 4,8 milhões de m3/dia para que as térmicas do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap 2026) operem em “capacidade máxima de modo contínuo”, expõe a histórica falta de entrosamento entre os setores de gás e de energia elétrica. Não faz sentido exigir disponibilidade de transporte 24 horas por dia para um fluxo de gás que só será necessário poucas horas por dia, para produção de energia elétrica no horário de máxima demanda. Como se sabe, o Brasil hoje tem sobra de energia; o que falta é potência, flexibilidade e inércia sistêmica. Como explicou Marcio Rea, diretor- -geral do ONS, o LRCap 2026 foi organizado para “... assegurar potência disponível nos momentos mais críticos” (Poder 360, 08/06/2026). Antes que alguém defenda investimentos na infraestrutura de gás, sob a premissa de um desnecessário funcionamento ininterrupto de usinas de ponta, é preciso perguntar: há alternativas economicamente mais atraentes? Possivelmente sim. Ou seja, talvez grande parte da atual infraestrutura de transporte de gás possa ser aproveitada, sem necessidade de novos investimentos, desde que o gás possa ser estocado. O armazenamento pode ocorrer nos gasodutos, tomando partido da compressibilidade do gás, ou em tanques próximos às usinas, na forma comprimida ou liquefeita. Assim, o transporte se daria de forma contínua, em menores vazões ao longo do dia, permitindo acumular o volume necessário para atender ao pico elétrico, de até quatro horas, com a potência requerida. Em 2006, quando era diretor-geral da Aneel, enfrentamos um outro descompasso entre o setor de gás e o de energia elétrica. A Petrobras entendia de forma equivocada que usinas merchant, por não possuírem contratos de venda de energia de longo prazo, estariam desobrigadas de atender ao comando de despacho do ONS. Porém, a regra do Sistema Interligado Nacional (SIN) sempre foi clara: O armazenamento pode ocorrer em gasodutos ou em tanques próximos às usinas Jerson Kelman foi diretor-geral da Aneel, presidente do Grupo Light e interventor na Enersul. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Jerson Kelman

RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=