Brasil Energia, nº 504, 30 de junho de 2026 53 bra e injetá-los nos momentos de maior escassez. Sem dúvida, são saídas tecnicamente adequadas para trazer maior segurança e reduzir o risco de apagões no Sistema Interligado Nacional (SIN). No entanto, elas resolvem apenas as consequências do problema, sem que a sua causa raiz seja tratada. Adotar soluções de alto custo, que trarão aumentos significativos nas tarifas pagas pelos mercados regulado e livre, possui um caráter ainda mais perverso. Ao mitigar os gargalos atuais do sistema, essas medidas permitirão que as fontes que hoje encontram dificuldades de conexão injetem ainda mais energia, ampliando a sobreoferta. Isso demandará novos investimentos em usinas de capacidade, mais baterias e, por consequência, novos aumentos tarifários, alimentando um ciclo vicioso. E por que chegamos a essa situação? Se analisarmos o histórico, veremos que pulamos fases essenciais do processo de diagnóstico - deliberadamente ou por esquecimento -, trocando análises concretas por narrativas. Alimentou-se a crença de que seria possível instalar, sem limites, fontes que não asseguram flexibilidade, continuidade e potência ao sistema. É importante recordar que, há muito tempo, debate-se no Brasil a necessidade de estabelecer os chamados “atributos das fontes”, mecanismo pelo qual se deveria identificar os custos e benefícios de cada tecnologia, sinalizando preços que reflitam essa realidade. Se isso tivesse sido feito, teríamos identificado as reais causas do problema, tratando-as de forma correta e balizando o futuro com assertividade. Se uma fonte produz energia de forma contínua e entrega potência ao sistema, ela não pode ter o mesmo valor de mercado que outra que não assegura esses benefícios. Da mesma forma, aquela que causa menor impacto ambiental não pode ser avaliada de maneira idêntica às que produzem maior dano à atmosfera. Tudo isso precisa ser pesado de forma matemática e equilibrada. Ao negligenciarmos essa lógica, agimos de forma comparável a um médico que, ao receber um paciente com febre superior a 39 °C, receita apenas um antitérmico e ignora a infecção real, mesmo tendo em mãos exames laboratoriais que fecham o diagnóstico da doença (cabe aqui um esclarecimento: a analogia ao médico é meramente figurativa e ilustrativa). Não há mais tempo a perder. Precisamos refazer a nossa análise de causa raiz e, acima de tudo, respeitar e aplicar o seu resultado, para manter a devida segurança operacional e reduzir os custos para os consumidores de energia elétrica. Esconder o problema, sem atacar as causas, apenas adia a solução mais duradoura Imagem gerada com IA
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