e-revista Brasil Energia 504

80 Brasil Energia, nº 504, 30 de junho de 2026 guns dos maiores projetos do mundo — energia limpa, estabilidade geopolítica relativa, distância segura de grandes conflitos e um sistema elétrico interligado. Mesmo assim, seguimos patinando em marco regulatório, incentivos à importação de equipamentos e segurança cibernética, desperdiçando potencialmente mais uma oportunidade. A indústria de gás natural é outro exemplo melancólico. Excluindo o consumo termelétrico, que é altamente volátil, o consumo industrial de gás encolheu cerca de 30% na última década. A rede de transporte praticamente não evoluiu nesse período, frustrando o discurso da interiorização do gás como vetor de desenvolvimento industrial. As redes de distribuição cresceram cerca de 20%, mas seguem concentradas em regiões já atendidas e densamente povoadas. Somos hoje um país que reinjeta praticamente o dobro do seu consumo industrial de gás natural, paga quase cinco vezes o preço praticado nos Estados Unidos (antes mesmo dos custos de distribuição, comercialização e impostos que aumentam esta diferença) e ainda mantém um gasoduto ocioso para importar gás de um país que pouco investiu em produção nas últimas décadas. Enquanto isso, importamos mais de 70% dos fertilizantes nitrogenados que poderiam ser produzidos localmente a partir de gás natural competitivo. Nossa indústria petroquímica, altamente dependente de nafta, sofre para competir com países que aproveitaram o gás barato para desenvolver cadeias inteiras. Os Estados Unidos, por exemplo, adicionaram cerca de 40% de capacidade de produção de etileno após a revolução do shale gas, transformando uma indústria antes considerada em declínio em uma das petroquímicas mais competitivas do mundo. Só que o tempo não para. A transição energética avança, o custo da energia renovável cai rapidamente, o transporte se eletrifica. Quando o Brasil finalmente acordar, talvez o gás nem seja mais considerado combustível de transição. Por fim, vale sempre lembrar da China — muito menos abençoada em recursos naturais do que muitos de seus pares. Com planejamento e foco, a China se tornou líder mundial em equipamentos solares, criou uma indústria de veículos elétricos capaz de desestabilizar a indústria automobilística global e domina hoje os principais elos da cadeia de minerais críticos.Ainda que não controle a mineração na mesma proporção, domina cerca de 85% a 90% da separação, aproximadamente 75% do refino e perto de 80% da manufatura global desses minerais. Enquanto isso, mesmo estando entre os cinco países com maiores reservas de minerais críticos do mundo, seguimos presos ao velho dilema entre exportar commodities ou agregar valor.Talvez devêssemos olhar para o tema de forma mais estruturada e sequencial: começar gerando valor nos elos menos complexos da cadeia e, a partir daí, desenvolver gradualmente um projeto industrial consistente. E não me venham com a desculpa de que os Estados Unidos são uma economia desenvolvida ou que a China é uma ditadura planejada para justificar qualquer coisa. Planejamento de verdade não pode depender de ideologia política. Planejamento é, acima de tudo, política de Estado. De nada adianta estar deitado eternamente em berço esplêndido, como diz nosso hino. Potência só se transforma em riqueza com visão estratégica, planejamento, trabalho, organização e disciplina. Continuo torcendo pela nossa seleção. Mas mais do que o sonho do hexa, quero ver bem acordada o Brasil aproveitar as oportunidades. (continuação) Paula Kovarsky

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