e-revista Brasil Energia 504

Brasil Energia, nº 504, 30 de junho de 2026 79 plo, isso poderia representar quase USD 20 bilhões anuais. Mas esse carbono absorvido hoje não gera riqueza alguma para o país. Não conseguimos resolver adequadamente o problema fundiário nem garantir segurança jurídica e proteção efetiva às áreas preservadas, elementos fundamentais para assegurar a permanência dos créditos de carbono. Sem isso, o interesse internacional permanece limitado. Ainda assim, poderíamos ao menos reconhecer os chamados créditos de conservação na nossa própria meta de descarbonização (NDC), já que essa definição é discricionária. Com isso, sobrariam créditos de alta integridade — de reflorestamento ou biometano, por exemplo — para exportação valendo bem mais do que USD 10/t. O desmatamento finalmente volta a cair, e há mérito nisso. Mas seguir sem transformar floresta em riqueza concreta, sem criar incentivos econômicos reais e sustentáveis à conservação, é continuar sonhando apenas com potencial. Agora, energia limpa. Estamos cansados de ouvir que temos uma das matrizes elétricas mais limpas e competitivas do mundo. Que ela é limpa, não há discussão. Mas uma parcela importante dessa competitividade se perde no caminho entre a geração e o consumidor final. Ao longo dos anos, o sistema elétrico acumulou subsídios, distorções e penduricalhos: térmicas emergenciais a diesel e carvão, conta de consumo de combustível dos sistemas isolados, ausência de sinal econômico adequado na transmissão, CDE, quebra- -quebra de comercializadoras, incentivos mal calibrados à geração distribuída e assim por diante. Tudo isso soma algo próximo de R$ 100 bilhões por ano — cerca de 1% do PIB brasileiro. Em contrapartida, quanto cresceu a produção industrial brasileira atraída por essa energia limpa? O que dizer do exagero nos incentivos à expansão eólica e solar que, somado ao mau planejamento do sistema, físico e energético, criou o problema do curtailment, o corte forçado de geração? As perdas anuais podem chegar a R$ 6 bilhões. Um país como o Brasil se dá hoje ao luxo de desperdiçar mais de 3 GW médios, ou 28 TWh por ano. Para ilustrar: 28 TWh equivalem ao consumo anual de uma cidade do tamanho do Rio de Janeiro ou de Madrid e seriam suficientes para produzir cerca de 2 milhões de toneladas de alumínio primário — algo próximo de 3% da produção mundial — ou alimentar cerca de 20 megadatacenters de inteligência artificial. Como se não bastasse o absurdo, parte do setor segue aguardando mais uma solução governamental, enquanto muitos geradores demonstram enorme resistência em vender essa energia a preços mais baixos para atrair soluções de mercado, como datacenters ou mineração de bitcoin. A solução é mais complexa, claro. Envolve segurança de fornecimento e disponibilidade horária da energia. Mas o absurdo permanece. Aproveitando o tema dos datacenters: temos praticamente tudo para atrair alOs 486 milhões de ha de floresta nativa no Brasil absorvem entre 1,5 e 2 bilhões de t de carbono por ano. A USD 10 / tCO2, poderiam render quase USD 20 bilhões anuais. Imagem gerada com IA

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