Brasil Energia, nº 507, 21 de setembro de 2026 67 Oportunidades com o mercado livre de energia na Amazônia O mercado livre de energia abre oportunidades de transformar recursos regionais em tecnologia e desenvolvimento na Amazônia. A questão é quem capturará o valor gerado por elas A abertura do mercado de energia elétrica entrou em uma nova fase. Desde janeiro de 2024, todos os consumidores do Grupo A passaram a poder escolher seu fornecedor de energia elétrica, ampliando significativamente o universo potencial do Ambiente de Contratação Livre (ACL). Em 2025, o mercado livre alcançou aproximadamente 85 mil consumidores e passou a representar cerca de 43% do consumo de eletricidade do país. Esse movimento, entretanto, não ocorre de maneira homogênea no território nacional. Na Amazônia, por exemplo, essa transformação precisa ser tratada a partir de uma perspectiva própria. A região possui grande diversidade de recursos energéticos, mas também enfrenta desafios relacionados à distância dos grandes centros de consumo, à infraestrutura de distribuição, à logística, à dispersão populacional e à existência de sistemas elétricos isolados. Há risco de a abertura do mercado livre ampliar simplesmente a importação, sem aproveitar a demanda para criar oferta dentro da própria região. O desafio, portanto, é a criação de condições para que a Amazônia se posicione melhor como produtora de energia, fornecedora de tecnologia, fabricante de equipamentos e geradora de negócios. Recurso natural não é, por si só, garantia de desenvolvimento. É necessário transformá-lo em produto, energia, tecnologia, serviço, conhecimento e atividade econômica. A região amazônica apresenta um conjunto diversificado de possibilidades, que inclui recursos hídricos, solar, biomassa com um leque extenso de produção de diversos energéticos e, em determinados locais, potencial eólico, além das oportunidades associadas ao armazenamento de energia e à integração de diferentes fontes. A hidreletricidade, por exemplo, possui histórica importância na matriz energética regional e continuará tendo papel relevante em determinados contextos. Pequenas centrais hidrelétricas e outras soluções de aproveitamento de recursos hídricos podem encontrar aplicações específicas, uma vez observados critérios técnicos, econômicos, ambientais e sociais. A energia solar apresenta grande potencial de complementaridade a outras fontes, especialmente em sistemas isolados. A biomassa pode contribuir para geração firme e aproveitamento de resíduos. O armazenamento por baterias pode aumentar a flexibilidade dos sistemas. A combinação dessas alternativas pode resultar em microrredes híbridas mais resilientes e adequadas às características amazônicas. Resíduos agrícolas, florestais e agroindustriais, recursos hídricos, radiação solar e outras fontes podem participar de diferentes configurações energéticas. Combustão, briquetagem, gaseificação, pirólise, digestão anaeróbia para produção de biogás e biometano, craqueamento, transesterificação e esterificação, são algumas das rotas que podem ser avaliadas para a biomassa. Também merece ser considerada, de maneira seletiva e sustentável, a produção de bioetanol a partir de matérias- -primas nativas ou regionais da Amazônia. O bioetanol pode estabelecer uma Rubem Cesar Souza é engenheiro elétrico, mestre em Engenharia Mecânica, doutor e pós-doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos, professor na UFAm e Unicamp. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses. Rubem Souza
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