Brasil Energia, nº 507, 21 de setembro de 2026 75 Vejo pelo menos duas possibilidades. A primeira ideia, explorada na tese de mestrado de Rafael Benchimol Klausner (estive na banca examinadora, no Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio), trata de um mecanismo de leilão agnóstico (sem predefinição de fontes). As ofertas são definidas por parâmetros técnicos e de custo padronizados e o portfólio vencedor é determinado pela resolução de um modelo de planejamento da expansão que representa, explicitamente, as restrições de rede e as interações operacionais entre as fontes existentes e as novas sendo selecionadas. A adequação do sistema e o valor locacional dos atributos emergem do próprio processo de otimização. Numa linguagem não acadêmica: é como se os geradores fossem vendedores numa feira livre e o leiloeiro fosse a dona de casa que busca, entre todas as bancas, a combinação exata de alimentos para manter a família saudável ao menor custo total. Uma segunda ideia é recorrer ao consórcio virtual de usinas. Uma ou mais unidades de geração e armazenamento — por exemplo, uma usina fotovoltaica e uma hidrelétrica reversível, ambas conectadas à rede básica — associam-se para oferecer, de forma agregada, não apenas energia, mas também potência, flexibilidade e inércia, dentro de faixas pré-estabelecidas. Nesse modelo, elimina- -se a necessidade de leilões centralizados. Ao celebrar contratos bilaterais com esses consórcios, consumidores livres, comercializadores e distribuidoras compram de forma casada os demais atributos indispensáveis à estabilidade do grid. A responsabilidade de se associar livremente para compor o produto completo passa a ser dos próprios agentes de oferta. Na analogia da feira, é como se cada feirante passasse a oferecer aos clientes uma cesta básica já balanceada, contendo proporções dentro de faixas pré-definidas de proteínas, carboidratos e vitaminas. Seja pela via do planejamento centralizado otimizado (a feira inteligente), seja pela via do mercado livre com consórcios obrigatórios de atributos (as cestas balanceadas), ou talvez via uma terceira ou quarta alternativa aqui não elencadas, o setor elétrico precisa parar de contratar soluções “tapa buracos”. É hora de substituir o intervencionismo casuístico por mecanismos transparentes de mercado, onde quem vende eletricidade entrega também a estabilidade que o sistema exige. É hora de substituir o intervencionismo casuístico por mecanismos transparentes de mercado, onde quem vende eletricidade entrega também a estabilidade que o sistema exige
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