74 Brasil Energia, nº 507, 21 de setembro de 2026 Jerson Kelman Jerson Kelman é engenheiro civil e M.Sc. pela UFRJ e Ph.D. pela Colorado State University. Participa dos conselhos de administração Evoltz, Iguá e Orizon. É professor aposentado da Coppe-UFRJ. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Lastros necessários à estabilidade do sistema elétrico Há alternativas aos LRCaps que resultam em soluções “tapa buracos”. Este artigo mostra duas vias entre outras possíveis; uma com leilões planejados sem predefinição de fontes, outra que estimula geradores a se consorciarem para oferecer energia, potência e flexibilidade É senso comum que uma embarcação sem lastro (peso no fundo) é instável. A expressão foi tomada emprestada pelo setor elétrico para expressar um conceito semelhante: sem lastro, o sistema é instável e pode colapsar. Mas o que significa lastro nesse contexto? Anos atrás, quando a produção de eletricidade era predominantemente hidrelétrica, dependente das vazões dos rios, o lastro do sistema era a capacidade conjunta de produzir energia (MWh) durante períodos hidrológicos críticos (secas que poderiam durar anos). O lastro de cada usina era calculado pela sua produção energética nesses períodos de estiagem. Ao longo das décadas, esse indicador teve diferentes denominações (energia firme, energia garantida ou garantia física). Para assegurar o equilíbrio entre oferta e demanda, os vendedores não podiam comercializar mais do que o seu lastro energético. Quando mais de 90% da produção era hidrelétrica, o lastro energético era a única preocupação. Não mais. Hoje sobra lastro energético e faltam outros tipos de lastro — como potência (a primeira derivada da energia no tempo) e flexibilidade (a segunda derivada da energia no tempo). Isso aconteceu porque se permitiu que usinas com lastro energético, porém desprovidas de potência e flexibilidade, entrassem no mercado para vender apenas uma fração do que é necessário para garantir um serviço confiável. O resultado é conhecido. Alarmado pela possibilidade de apagões, o Governo organiza leilões isolados de capacidade para suprir falhas estruturais de funcionamento do mercado. Lamentavelmente, esses leilões têm sofrido forte influência de lobbies. A expansão da infraestrutura passou a depender menos da necessidade real da demanda e mais da proximidade dos agentes de oferta com o poder político. De remendo em remendo, o setor elétrico está se transformando num Frankenstein. Urge recolocá-lo nos trilhos.
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