e-revista Brasil Energia 508

Brasil Energia, nº 508, 30 de outubro de 2026 11 Pequenas e médias empresas estão preparadas para o Mercado Livre? A abertura do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão produzirá importante mudança na relação entre pequenas e médias empresas brasileiras e seu suprimento de eletricidade. A energia deixará de ser apenas uma conta a pagar para ser uma conta a administrar A partir de 25 de novembro de 2027, consumidores industriais e comerciais atendidos em tensão inferior a 2,3 kV poderão escolher o fornecedor com quem contratarão sua energia. Um ano depois, o direito será estendido aos demais consumidores de baixa tensão. Para milhões de empresas, energia elétrica sempre foi essencialmente uma conta a pagar. A empresa consumia, recebia a fatura da distribuidora e pagava uma tarifa regulada. Com a abertura, a energia passa também a ser uma compra que precisa ser administrada. Segundo estudo recente da McKinsey, aproximadamente 4 milhões de unidades consumidoras industriais e comerciais de baixa tensão poderão participar dessa nova etapa. O número não corresponde exclusivamente a pequenas e médias empresas — o critério regulatório considera a tensão de atendimento, e não o porte empresarial —, mas inclui grande contingente de estabelecimentos comerciais e indústrias de menor porte, tais como pequenas indústrias, hospitais, supermercados etc. O tamanho da oportunidade é evidente. Menos evidente é o grau de preparação desses consumidores. A mesma pesquisa mostra que apenas entre 5% e 10% dos entrevistados afirmam conhecer bem o mercado livre e considerar uma migração. Mesmo entre empresas com contas superiores a R$ 10 mil mensais, 35% declaram não conhecer suficientemente o modelo. Essa assimetria de informação talvez seja um dos principais desafios da abertura. O primeiro risco é acreditar que migrar para o mercado livre significa, automaticamente, reduzir a conta de energia em determinado percentual. Não necessariamente. No Ambiente de Contratação Livre, o consumidor negocia a compra da energia, mas continua utilizando a infraestrutura da distribuidora local e pagando pelos custos associados às redes, além de encargos e tributos. A distribuidora continua responsável pela infraestrutura e pela qualidade física do fornecimento. Portanto, uma oferta afirmando que a “energia” será 20% ou 30% mais barata não significa que a conta total cairá na mesma proporção. Um exemplo ajuda a mostrar essa diferença. Tomemos uma indústria atendida pela EDP São Paulo, enquadrada no grupo B3 convencional e consumindo 30 MWh por mês. Pelas tarifas atualmente homologadas pela Aneel, são aproximadamente R$ 456,67/MWh de TUSD e R$ 330,03/MWh de TE, totalizando R$ 786,70/MWh antes de tributos e bandeiras. O custo tarifário mensal seria, portanto, de aproximadamente R$ 23,6 mil. No processo tarifário da EDP São Paulo, a Aneel calculou que a estrutura econômica da receita se distribui aproximadamente em 32,4% para energia, 27,8% para distribuição, 28,0% para Tulio Chipoletti é engenheiro Mecânico pela FEI, pós graduado em Financas pelo Ibmec e MBA pelo Insead/França com a Fundação Dom Cabral. É consultor independente em Energia, Petróleo e Gás e conselheiro associado a Board Academy. Escreve mensalmente na Brasil Energia. Tulio Chipoletti

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