e-revista Brasil Energia 508

10 Brasil Energia, nº 508, 30 de outubro de 2026 continuação do artigo Nove preocupações e uma boa notícia no setor de energia que a regra pretendia. É preciso conter as duas: a explosão da GD subsidiada e a fraude que prospera à sua sombra. Os cortes de geração são a face mais cara dessa fragmentação. Já argumentei aqui que o curtailment é sintoma e não causa. O que ficou mais claro desde então é a sua dimensão distributiva. O país despreza energia limpa já contratada e já paga. O prejuízo recai sobre quem investiu, inclusive a indústria que foi para a autoprodução renovável para cumprir metas climáticas. E o risco retorna precificado no contrato de quem compra. Cortar não tem efeito neutro, é transferência de valor entre compartimentos que ninguém decidiu e ninguém controla. 8. Há indícios de exercício de poder de mercado. O tema precisa sair do sussurro das conversas do setor para a análise. Fala-se em contenção da oferta e em atuação sobre a regulação para elevar o custo da energia, como a consideração exagerada de fatores de risco na operação. Não se trata de acusar ninguém e sim de reconhecer que mercado opaco e segmentado é terreno fértil para isso. Faltam instrumentos de monitoramento à altura. 9. A desorganização produz comportamentos oportunistas. Muitos deles legítimos. Quando o sistema cobra de forma assimétrica, cada agente busca a rota de menor custo. Mas a fuga individual não faz o custo desaparecer e sim transfere, concentra e amplia. O somatório de decisões racionais produz um resultado coletivamente ineficiente. O caminho: sinais econômicos corretos A solução não é mais um remendo. É reorganizar o setor a partir de sinais econômicos corretos, sob um princípio simples e exigente: cada agente ganha conforme o benefício que traz ao sistema e paga pelo custo que aporta a ele. Isso muda a natureza do jogo. Hoje o esforço dos agentes é gasto em arbitrar contra o sistema — migrar de compartimento, buscar o enquadramento que paga menos encargo, fugir de custos que continuarão existindo depois que se vai. Com sinais corretos, a competitividade passa a arbitrar a favor do sistema. Para a indústria, é concreto consumir mais quando a energia tem custo marginal próximo de zero, nas horas em que o país estaria simplesmente cortando geração limpa, e reduzir consumo, ofertando a sobra, quando essa energia compete com a térmica. O consumidor industrial deixa de ser custo a ratear e passa a ser fonte de flexibilidade, remunerado pelo valor que entrega, isto é, a forma mais barata de obter o que hoje tentamos comprar com leilões emergenciais e encargos. A boa notícia Existe hoje uma convergência inédita em torno do diagnóstico no governo, no mercado e no Congresso, onde já há percepção de que certas distorções custam caro ao país. Nestas mesmas páginas, Jerson Kelman tem descrito um setor que, de remendo em remendo, virou um “Frankenstein”, e tem sistematizado os pilares de uma reforma. Mais importante ainda é a convergência dentro do setor. As lideranças das grandes empresas, por meio de suas associações, estão dialogando e nesse diálogo se dissolve a lógica que nos travou por tanto tempo, a de resolver o problema de casa exportando o custo para o vizinho. Já não se sustenta defender o próprio jabuti e condenar o do outro. Esse amadurecimento já produziu movimentos concretos: o teto da CDE, ainda que parcial, e as discussões sobre a contenção dos custos da geração distribuída. Por isso o início do próximo governo é uma janela real. Não porque haja solução mágica na gaveta, mas porque pela primeira vez existe base compartilhada para agir e as conversas com as campanhas indicam que o tema não chegará como novidade. Um Plano Real da energia E qual é a resposta? Crescer. Repito de propósito o que escrevi em julho: o Brasil precisa estimular o consumo de energia - e não o conter -, eletrificar processos hoje movidos a fósseis, recuperar a capacidade ociosa pela qual já estamos pagando e devolver competitividade à indústria. É o crescimento do consumo que dilui os custos fixos sobre uma base maior, que reduz o custo unitário para todos e faz girar as engrenagens da economia. Seria, no sentido mais literal, um Plano Real da energia, um choque de ordenamento que estabiliza custos, restabelece sinais de preço e devolve previsibilidade a quem investe e a quem consome. Este é o caminho de recuperação não só do setor elétrico, mas de toda a sua cadeia. Temos a matriz. Temos o potencial. Temos, agora, o diagnóstico compartilhado. Falta a decisão de enfrentar as distorções antes que elas consumam a nossa maior vantagem competitiva.

RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=