e-revista Brasil Energia 508

Brasil Energia, nº 508, 30 de outubro de 2026 9 Paulo Pedrosa Paulo Pedrosa é engenheiro mecânico (UnB), com MBA da Fia-USP e cursos de especialização pela Fundação Dom Cabral. Atualmente preside a Abrace Energia e participa dos Conselhos do ONS, CCEE, EPE, Equatorial Energia e dos Conselhos de Infraestrutura da CNI e Fiesp. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses. Nove preocupações e uma boa notícia no setor de energia O início do novo governo é uma janela real. Não porque haja solução mágica na gaveta, mas porque pela primeira vez existe base compartilhada para agir e as conversas com as campanhas indicam que o tema não chegará como novidade Em julho escrevi nestas páginas que o Brasil tem muita energia para perder tantas oportunidades. Aquele artigo nasceu de um episódio — mais uma leva de jabutis aprovada às pressas — e tratou do sintoma. Quero agora aprofundar os pontos que levantei lá, organizando o que os estudos da Abrace Energia vêm apontando sobre o rumo do setor elétrico. E o momento eleitoral pede isso: em breve estará em construção um novo ciclo, sendo um presidente novo ou se o atual presidente for reeleito. E a agenda que ele herdar definirá se o Brasil aproveita ou desperdiça o que tem de melhor, seu potencial de produzir energia limpa e barata. Deixo a boa notícia para o fim. Antes dela, nove razões de preocupação: 1. A CDE não foi contida — foi contida pela metade. O teto aprovado foi um avanço real, mas alcança apenas parte da conta: a outra metade segue crescendo. E a base de pagadores está encolhendo. Quando o numerador cresce e o denominador diminui, o resultado é aritmético; em reais por MWh, para quem paga, a CDE continuará explodindo. 2. O leilão de reserva de capacidade é a próxima CDE — só que maior. Esse encargo caminha para superar a própria CDE. A cobrança vem sendo feita de maneira equivocada e contrata-se solução de quem não resolve o problema. Explosão de custo e mais distorção. Estamos criando, com nome novo, o passivo que levamos duas décadas para admitir que existia. 3. A transmissão vai custar muito mais. A rede fica cada vez mais complexa, as fontes estão distantes da carga e seu planejamento é extremamente conservador. Teremos mais rede, porém mais ociosa. O custo por unidade de energia entregue sobe. 4. A distribuição também. Modernizar as redes e prepará-las para a resiliência climática é necessário. Mas amplia a base de investimentos remunerada das distribuidoras, que chega ao consumidor como custo de energia. 5. Seguem as imposições de energia cara. O exemplo mais eloquente é a eventual retomada de Angra 3, com energia que pode passar de R$ 800 por MWh, rateada entre todos. Não é escolha do mercado nem do consumidor, é imposição cujo custo é socializado e cuja conta chega em um lugar só. 6. O próprio custo da energia sobe. Poderia ser muito barata, mas não está sendo. Além do custo de capital de um país de juro alto, os geradores passaram a precificar a modulação, a diferença entre submercados e o corte de geração. Riscos legítimos, mas, em boa medida, produto das nossas próprias regras, que voltam ao consumidor no preço de longo prazo. 7. O setor está desorganizado. O mercado está quebrado em pedaços que quase não conversam: geração distribuída, mercado regulado, energia incentivada, autoprodução, autoprodução incentivada e mercado livre. Cada um paga uma parcela diferente dos custos do sistema. Toda diferença artificial de custo entre compartimentos é convite à arbitragem e o resultado é ineficiência crescente e menos liquidez. A geração distribuída é o caso mais eloquente e por isso volto a ela. Sua expansão deixou de guardar relação com qualquer política pública e passou a ser puxada pelo subsídio implícito. Ao lado dela cresce a GD gato, a instalação que se veste da moldura regulatória para capturar o benefício sem entregar o

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