e-revista Brasil Energia 508

Brasil Energia, nº 508, 30 de outubro de 2026 53 O desafio de criar valor com os minerais críticos na Amazônia O desafio não se resume apenas à extração de riquezas do subsolo, mas transformar recursos estratégicos em tecnologia, indústria e desenvolvimento para a própria região A sanção da Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), marca uma mudança importante na forma como o Brasil passa a enxergar determinados recursos minerais. Mais do que commodities destinadas à exportação, esses minerais tornaram-se elementos fundamentais para a transição energética, a transformação digital, a segurança alimentar, a soberania tecnológica e a redução das emissões de gases de efeito estufa. Na Amazônia, essa discussão assume importância ainda maior. A região reúne parte significativa do potencial mineral brasileiro e, ao mesmo tempo, convive com desafios relacionados à infraestrutura, logística, desenvolvimento social e conservação ambiental. Por isso, a questão central não é simplesmente ampliar a atividade minerária, mas definir de que forma esses recursos poderão contribuir para o desenvolvimento econômico e tecnológico da própria Amazônia. Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) indicam que a Amazônia Legal responde por parcela expressiva do valor gerado pelos minerais estratégicos do país. Entretanto, a produção regional permanece concentrada principalmente em ferro, bauxita, cobre e ouro. Minerais considerados essenciais para as novas cadeias tecnológicas, como terras raras, cobalto e potássio, ainda apresentam produção limitada ou inexistente na região. Nesse cenário surge a primeira grande oportunidade: ampliar o conhecimento geológico da Amazônia e transformar potencial mineral em projetos economicamente viáveis, ambientalmente responsáveis e socialmente legítimos. Não é por acaso que a nova política nacional destaca a ampliação da pesquisa mineral e do conhecimento geocientífico como prioridades estratégicas. Conhecer melhor o subsolo amazônico significa reduzir incertezas, atrair investimentos e criar condições para decisões mais seguras e sustentáveis. Mas conhecer e extrair não basta. A segunda oportunidade está na agregação de valor. A nova política procura estimular o beneficiamento e a transformação mineral em território nacional, reduzindo a dependência da exportação de matérias-primas e ampliando a participação brasileira nos segmentos mais sofisticados das cadeias produtivas globais. Para a Amazônia, isso leva a uma pergunta inevitável: por que os minerais devem deixar a região antes que parte significativa do valor econômico, tecnológico e profissional seja criada localmente? Responder a essa questão exige investimentos em infraestrutura, energia, logística, pesquisa, inovação e qualificação profissional. Não se trata apenas de abrir novas minas, mas de criar condições para instalar centros de processamento, refino e transformação industrial próximos às áreas produtoras. Se o minério sai bruto e retorna sob a forma de equipamentos, baterias, componentes eletrônicos ou tecnologias energéticas, a maior parte do valor agregado fica em outras regiões ou países. Uma terceira oportunidade emerge da própria transição energética. A expansão das energias renováveis, dos sistemas de armazenamento e das soluções híbridas pode permitir o desenvolvimento de uma mineração de menor intensidade de carbono. A própria PNMCE prevê mecanismos associados Rubem Souza Rubem Cesar Souza é engenheiro elétrico, mestre em Engenharia Mecânica, doutor e pós-doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos, professor na UFAm e Unicamp. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses.

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