60 Brasil Energia, nº 508, 30 de outubro de 2026 Bento Albuquerque, é almirante de Esquadra da Marinha do Brasil, ex-ministro de Minas e Energia e é presidente do Conselho de Administração da Núcleo Brasil Energia Participações. Escreve na Brasil Energia a cada dois meses. Bento Albuquerque A “conta de luz” da inteligência artificial O mundo inteiro entendeu uma coisa que o Brasil ainda trata como debate acadêmico: energia é a moeda da nova economia. Somos, no papel, o destino natural [dos investimentos em data centers]. Mas o mundo não investe em papel. Investe em previsibilidade Há números que impressionam. E há números que deveriam assustar. O gráfico a neste artigo pertence à segunda categoria. Em seis anos, o mundo vai despejar cerca de US$ 930 bilhões na construção de data centers. Para dar a dimensão: o sistema interestadual de rodovias dos Estados Unidos, a maior obra de infraestrutura da história americana, custou US$ 620 bilhões e levou 37 anos. O programa Apollo, que levou o homem à Lua, consumiu US$ 257 bilhões em 14 anos. Os data centers vão superar os dois somados — em menos tempo do que dois mandatos presidenciais. A curva do gráfico é vertical. E não vai se achatar tão cedo. Não é uma notícia sobre tecnologia. É uma notícia sobre energia. Sobre insumos. Sobre quem consegue entregar, no prazo e com previsibilidade, aquilo que a inteligência artificial mais consome: eletricidade firme, barata e constante. A IA não se compra na prateleira. Ela se constrói. E toda construção tem uma conta de luz. O que o mundo está descobrindo, à força, é que o gargalo da revolução digital não é o chip. É o fio. Não é o algoritmo. É o megawatt. Um data center de grande porte consome energia equivalente a uma cidade média. Cada nova geração de modelos de IA exige mais processamento, mais refrigeração e mais energia. E não é só eletricidade: são também água para resfriamento, terrenos, cabos de fibra, semicondutores, engenheiros. Uma cadeia inteira de insumos e pessoas que precisa estar disponível no lugar certo, na hora certa. Mas a energia é o nó central — porque sem ela, nada do resto funciona. Por isso, os países que querem sediar essa infraestrutura estão se movendo com uma rapidez que raramente se vê em políticas de Estado. Os Estados Unidos, o berço dessa revolução, estão fazendo o que há dez anos pareceria heresia ambiental: construindo dezenas de termelétricas a gás dedicadas exclusivamente a alimentação de data centers. Gás natural, queima firme, 24 horas por dia. Não como solução de transição — como solução de urgência. As concessionárias americanas revisam para cima suas projeções de carga, os gasodutos são ampliados e estados como Virgínia e Texas viraram laboratórios dessa nova corrida. A lógica é brutalmente simples: a IA não aceita apagão. Ela exige carga constante, ininterrupta, previsível. Renováveis intermitentes ajudam, mas não sustentam sozinhas uma instalação bilionária que precisa operar 99,99% do tempo. E há um segundo movimento que merece atenção: o renascimento nuclear. As gigantes de tecnologia, que durante anos fugiram de qualquer conversa sobre essa fonte, agora assinam contratos bilionários com usinas nucleares. A Microsoft fechou acordo para reativar a usina de Three Mile Island, na Pensilvânia. A Google firmou parceria com a Kairos Power para comprar energia de pequenos reatores modulares. A Amazon investiu em reatores modulares e em usinas existentes. A Oracle anunciou planos de alimen-
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