Brasil Energia | Ed. 451 - Junho, 2018
Brasil Energia , nº 451, junho 2018 37 Opinião Rafael Kelman Por mais de 50 anos o se- tor elétrico brasileiro se expan- diu em base à hidroeletricidade, transferindo a energia hídrica no tempo (entre períodos úmidos e secos) e no espaço (entre subsis- temas), por meio de grandes re- servatórios e extensa rede elé- trica. Contava ainda com usinas térmicas para dar confiabilidade ao suprimento. Esta lógica começou a ser alte- rada há cerca de 20 anos. Desde então nenhuma hidrelétrica com grande reservatório foi construí- da. Mais recentemente, a expan- são de qualquer hidrelétrica pa- rou de vez. Em sentido contrá- rio, há um rápido crescimento de outras fontes renováveis (FR), em geral para além do previsto nos planejamentos, tanto no Bra- sil quanto no exterior. A princi- pal razão é a redução de custos das tecnologias, que entre 2009 e 2017 foi de 50% para a fonte eó- lica e 75% para a solar. Torres eó- licas cada vez mais altas aprovei- tam velocidades maiores (a po- tência varia com o cubo da velo- cidade) e módulos fotovoltaicos convertem cada vez mais radia- ção em eletricidade. Além disso, ocorreu a massi- ficação da produção dos equipa- mentos. A competitividade das FR costuma ser calculada pe- la anuidade do custo de inves- timento e custo anual de O&M dividido pela energia gerada no mesmo período. Como a inter- rupção no fornecimento de ener- gia por falta de vento ou sol é inadmissível, as FR precisam de outros recursos, despacháveis quando necessário. Por exemplo, em alguns países usinas a gás são instaladas e operadas para com- pensar a variabilidade da produ- ção das FR. Portanto, uma avalia- ção completa da competitividade deve incluir o custo deste serviço de backup. A adoção das FR resultou em aumento do preço da energia nos mercados mais verdes, tanto pelo custo do backup (vejam artigo If solar and wind are so cheap, why are they making electricity so ex- pensive? na edição online da For- bes) quanto pelo custo do pio- neirismo (os preços dos contra- tos do PROINFA, por exemplo, são muito maiores do que os re- sultantes de leilões recentes). Na Alemanha, o aumento foi de 51% entre 2006 e 2016, na Califórnia de 24% entre 2011-2017 e na Di- namarca mais de 100% . O custo do serviço de backup no Brasil é certamente um dos menores do mundo graças à pre- dominância da fonte hidrelétri- ca, que responde bem às varia- ções das FR. Ou seja, quando as FR aumentam a produção, arma- zena-se água nos reservatórios. E vice-versa. Porém esse custo de- ve aumentar pelo continuado (e concentrado) crescimento das FR no Nordeste. Uma amostra é que parte da capacidade das linhas de transmissão até o Nordeste já é reservada pelo ONS para com- pensar a queda de produção das FR locais pelo aumento da pro- dução hidrelétrica nos demais sistemas. Qual o custo de manter esta capacidade ociosa agora e quan- to aumentará nos próximos 20 anos? Fará sentido prescindir- mos do potencial hidrelétrico re- manescente e dos reservatórios de regularização, considerado a expansão das FR? Até que ponto os leilões devem premiar somen- te a energia, aumentando a varia- bilidade pela concentração dos parques eólicos nos hotspots? O “efeito portfólio” das hidrelétri- cas, instaladas em tantas bacias hidrográficas não deveria tam- bém ser perseguido para as FR? O armazenamento da energia po- derá no futuro compensar a va- riabilidade das FR? Quais os im- pactos da expansão das FR sobre a formação de preços, que a par- tir de 2020 deverão ser horários? Estas questões motivam pro- jeto promovido pela cooperação alemã para o desenvolvimento sustentável, por meio da Deuts- che Gesellschaft für Internatio- nale Zusammenarbeit (GIZ) Gm- BH” com foco nas atividades de planejamento do sistema elétrico brasileiro. O projeto busca aper- feiçoar os procedimentos atuais aos novos tempos. As instituições beneficiadas (EPE e ONS) escala- ram equipes técnicas por tema (grid code, planejamento energé- tico e elétrico e tecnologias) pa- ra discutirem com o consórcio consultor (Lahmeyer, Tractebel e PSR) possíveis aperfeiçoamentos, sobretudo metodológicos. O pla- nejamento do setor elétrico pre- cisa adequar-se às rápidas trans- formações setoriais, um desafio que demandará muito trabalho. Rafael Kelman é diretor da PSR Planejando o planejamento
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