Brasil Energia | Ed. 451 - Junho, 2018
Resíduos e descartes para a geração de energia por Marcelo Furtado NADA SE PERDE 38 Brasil Energia , nº 451, junho 2018 Há um movimento global, em várias cidades, de criar sis- temas municipais de gerenciamento de resíduos alimentares. A questão em primeiro lugar é ética: 800 milhões de pesso- as passam fome no mundo e a estimativa é de que um terço da produção global de alimentos para consumo humano, algo como 1,6 bilhão de toneladas por ano, é desperdiçada. Mas é também ambiental: a redução e o tratamento dos resíduos ur- banos de alimentos figuram entre os mais importantes méto- dos para reduzir a chamada pegada de carbono das cidades, já que esses resíduos respondem pela emissão de 4,4 gigatone- ladas (Gt) de CO2 equivalente por ano, o que representa 8% das emissões antropogênicas de gases do efeito estufa. A estratégia que começa a ser adotada pelas cidades é transformar o resíduo em recurso, seja ele fonte de energia ou não, aproveitando o que for possível. O caminho pode passar pela compostagem, pelo aproveitamento como ra- ção animal (casos da Coreia e Japão), e, em vários casos, pe- la digestão anaeróbica, que daí gera o biogás ou mesmo sua versão purificada, o biometano. Quando a contaminação não permite nenhuma dessas saídas, muitas cidades com usinas de WTE fazem uso da solução. Esse movimento voltado especificamente para o resíduo alimentar foi tema, por exemplo, de estudo publicado em maio deste ano pela World Biogas Association (WBA), cha- mado Global Food Waste Management: An Inplementation Guide for Cities, que mostra o exemplo de nove cidades que adotaram programas de coleta de resíduos de alimen- tos para posterior tratamento, não obrigatoriamente apenas a solução do biogás. A pesquisa, que ainda conta com valio- sos capítulos conceituais sobre o problema, demonstra que é, sim, possível migrar a gestão do lixo do conceito linear pa- ra o circular. O exemplo de Milão, na Itália, mostrado no estudo, é mui- to interessante por usar uma solução integrada, inclusive com recuperação de energia via incineração. Em 2012, a coleta de resíduos alimentares começou na cidade, primeiro em restaurantes, hotéis, escolas e supermercados e, depois de um ano e meio, se estendeu a 100% dos cerca de 1,4 milhão de habitantes, incluindo casas, comércio e indústria. Isso fez com que 140 mil toneladas por ano de lixo alimentar passas- sem a ser recolhidas para tratamento. Todos os resíduos, separados pelos habitantes em emba- lagens e caçambas preparadas, são coletados e transporta- dos por caminhões para uma estação de digestão anaeróbica integrada a uma unidade de compostagem. Aquilo que não é reciclável segue para uma usina de WTE para recupera- ção energética. Já o resíduo alimentar orgânico, um volume de 285 mil t/ano, com o digestor gera biogás para alimen- tar motogeradores de usina térmica de 9 MW. O fluxograma operacional ainda desloca 300 mil t/ano de biogás para ser purificado e transformado em biometano, que é injetado na rede de gás canalizado. A estratégia milanesa para transformar o lixo em recurso não acaba aí. Durante o tratamento anterior ao biodigestor, os sacos de lixo são triturados e enviados ao incinerador do WTE com outros plásticos, enquanto os contaminantes me- tálicos são removidos e reciclados. Além disso, o composto residual da digestão é preparado e vendido a fazendeiros da região como fertilizante a um valor que varia entre € 20 e € 50 s por tonelada. O exemplo italiano mostra que é possível implementar um sistema de coleta de resíduos orgânicos, integrado a um digestor, em uma cidade de grande porte. Os anos de opera- ção demonstraram também que a consciência dos cidadãos foi determinante para o sucesso, fazendo inclusive com que a taxa de contaminação (de frações não compostáveis) ficas- se sempre no limite de 5%, com tendência de diminuição. Além de Milão, há mais exemplos no estudo que valem como incentivo para outras cidades começarem a se planejar e a integrar soluções para o resíduo alimentar, como é o caso do sistema de coleta, pré-tratamento dos resíduos residen- ciais e da indústria e comércio de Copenhague, na Dinamarca, que gera 7,5 milhões de m3/ano de biogás, usados para pro- duzir eletricidade injetada na rede e também em parte para calefação de 450 casas de um vilarejo local. As experiências do estudo da WBA poderiam servir de base para ações no Brasil, onde pelo menos 50% do lixo é constituído por matéria orgânica, grande parte dela de ori- gem alimentar. Por aqui, praticamente nenhuma cidade, com exceção de Curitiba, que inaugurou neste ano usina a biogás alimentada por lodo de esgoto e resíduos alimentares, tem essa questão em pauta. Nunca é tarde. Cidades começam a usar resíduos alimentares como fonte de energia WTE na Finlândia: resíduos alimentares como fonte de energia para evitar impacto ambiental Divulgação
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=