Brasil Energia | Ed. 455 - Fevereiro, 2019
22 Brasil Energia , nº 455, 1 de fevereiro de 2019 ENTREVISTA COM ECONOMISTA-CHEFE DA BP SPENCER DALE milhões de barris por dia nos próximos 20 anos. Isso po- derá tornar o Brasil um exportador de petróleo. Até que ponto os veículos elétricos podem afetar as estra- tégias das companhias produtoras de combustíveis fósseis? Acredito que os veículos elétricos crescerão rapida- mente nos próximos 20 anos. Agora, a que velocidade, é difícil saber. Hoje, são 3 milhões de veículos elétricos no planeta de um total de 1 bilhão de carros e a expectativa é que alcancem a marca de 300 milhões nos próximos 20 anos. No entanto, os impactos desse crescimento para a demanda de petróleo são relativamente pequenos, uma redução em torno de 2 milhões a 3 milhões de barris de óleo por dia. Então, nesse momento, os veículos elétricos não são uma ameaça para a demanda de óleo. Mesmo que a previsão emumde nossos cenários se confirme, de 1 bi- lhão de veículos elétricos no mundo em 2040, a demanda de óleo ainda será grande como nos dias de hoje. E a BP participará ativamente no ambiente de mobilidade elétri- ca, investindo em projetos na área. Penso que a demanda estará aí, mas não será a única forma de mobilidade. No caso do Brasil especificamente, como os veículos elétricos podem se inserir no mercado, considerando a grande diversidade de biocombustíveis no país? O principal atrativo para a maioria dos governos ao re- dor do mundo com os veículos elétricos é melhorar a qua- lidade do ar. A escolha pelos veículos elétricos se dá por- que esses países não têm diversas opções de biocombus- tíveis nem 60% de carros em circulação são flex. Portan- to, não compreendo o porquê do Brasil entrar nessa corri- da dos veículos elétricos. Ou colocando de outra forma, se perguntar a outros governantes se eles tivessem a opção de escolher biocombustíveis, eles responderiam que sim. Diante da questão dos carros elétricos, ainda temos um cenário de crescimento interno da demanda de combustí- veis líquidos. Faz sentido, portanto, o Brasil continuar ex- pandindo seu parque de refino para atender essa demanda? No momento, combustíveis líquidos estão compre- endidos tanto por óleos básicos quanto por biocombus- tíveis. Acredito que a participação de cada um no merca- do hoje está dividida em cerca de 50% para combustíveis líquidos e a outra metade para biocombustíveis. A expec- tativa é que a participação dos biocombustíveis cresça ra- pidamente, algo em torno de um quarto até 2040. Ainda assim acredito que haverá algum crescimento na produ- ção de óleo. O fato é que o governo brasileiro realmente precisa fazer uma escolha em relação a importar combus- tíveis e isso não é uma coisa terrível de se fazer. E quando se fala em biocombustíveis, está basicamente relacionado a etanol e biodiesel? Vejo um importante futuro para a indústria de bio- combustíveis aqui no país. O Brasil possui um impor- tante programa para esses tipos de combustíveis [Re- novaBio], com políticas que incentivam os biocom- bustíveis mas também políticas que incentivam com- panhias a produzirem biocombustíveis mais eficientes. Como a BP ir á se posicionar aqui no Brasil diante des- sa competição entre fontes energéticas? Estou muito confiante de que a BP está se consoli- dando aqui com uma empresa que produz energia, com uma combinação entre produção de petróleo e gás asso- ciado, além de continuar crescendo em biocombustíveis e expandindo sua atuação em projetos de energia solar e em outras áreas do petróleo, como o downstream. E acre- dito que isso poderá acontecer em função da retomada do crescimento da economia brasileira nos próximos dez anos. O Brasil tem potencial significativo, mas precisa fa- zer importantes reformas, como a tributária e a da Previ- dência, nos próximos cinco a dez anos. Em quanto tempo esse equilíbrio entre energia e petró- leo dentro da BP deve acontecer? Depende, em parte, do ritmo da transição energé- tica, o quão rápido o mundo se movimentará de uma matriz de óleo e gás para outras fontes de energia. Acre- dito que, nos próximos 30 anos, 40 anos, ainda haverá continuidade significativa por óleo e gás, mas meu pal- pite é que isso será diferente e, para nós, o desafio será encontrar caminhos para que possamos participar des- te mercado com outra fonte de energia e como lucrar com ela. No passado, a BP lucrou muito com negócios na área de energia solar, quando a empresa era a segun- da maior produtora de painéis solares no mundo, mas perdemos tudo por diversos fatores. Então, condições de crescimento nessa área serão feitas com base em competitividade, como no desenvolvimento de proje- tos solares, contratos de longo prazo no mercado regu- lado e também no mercado livre. Esses são os tipos de negócios que acreditamos que poderemos ter sucesso. Dessa forma, é difícil saber como iremos mudar e qual será esse ritmo porque o sistema global está mudando e precisamos responder a isso rapidamente. n
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