Brasil Energia | Ed. 456 - Maio, 2019

54 Brasil Energia , nº 456, 20 de Maio de 2019 DISTRIBUIÇÃO Os casos de destaque protago- nizados pela Copel, EDP Brasil e CPFL Energia são reflexos de um contexto setorial desafiador. O seg- mento de distribuição reage moti- vado essencialmente por questão de sobrevivência, buscando preservar valor nessa atividade que, desde me- ados da década, vem passando maus bocados, obrigada a carregar - entre um e outro reajuste tarifário - pe- sados custos de geração encarecida pelo impasse do risco hidrológico e pelo peso da produção termelétrica. Inicialmente, as empresas partiram para medição remota de grandes con- sumidores e esquemas de prevenção de perdas não comerciais. Na sequên- cia, concentraram foco na mobilidade mais racional de suas equipes na exe- cução de consertos e reparos nas redes, evitando deslocamentos desnecessá- rios e desordenados que ocorriamcom frequência.Numa etapamais recente, a atenção esteve praticamente toda vol- tada para automação das redes e digi- talização de subestações, tudo coorde- nado, ao final, por sofisticados sistemas de gestão de última geração. Segundo dados de 2016 da Asso- ciação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), as compa- nhias associadas investiramR$ 13,8 bi- lhões. Já em2017, essemontante saltou para R$ 16 bilhões. Os R$ 2,2 bilhões a mais foram destinados, basicamente, paramodernização emelhorias nas re- des porque os aportesmais pesados em expansão já haviam sido realizados pa- ra poder viabilizar as metas de univer- salização do programa Luz Para Todos. Agora, acontece a modernização, em- bora ainda há dificuldade para que to- dos os novos recursos agregados às re- des tenham, por parte da regulação em vigor, reconhecimentonas tarifas.Nem tudo tem ganho de remuneração con- siderada adequada do lado da Aneel, quemesmo semdefinir explicitamente como as empresas devem aplicar seus recursos em smart grid, acaba, por vias indiretas,aumentandoo rigor emcima dos indicadores de qualidade (DEC e FEC), o que leva, consequentemente, as empresas a recorrer a mais tecnolo- gia agregada. Segundo Caius Vinicius Mala- goli, diretor de Engenharia da CPFL Energia, há uma discussão no seg- mento, ainda não devidamente en- dereçada, que questiona o prazo de depreciação de ativos utilizados nas redes inteligentes. Ou seja, na visão das distribuidoras, diante da velo- cidade com que as inovações acon- tecem, seria mais adequado redu- zir os prazos para amortização de equipamentos e, principalmente, no que se refere a softwares, cuja atualização é periódica, até por ra- zões de segurança cibernética. Há no momento uma expectati- va de que vários temas ainda não pa- cificados em relação à moderniza- ção das redes venham a ser aborda- dos no decorrer da Audiência Públi- ca 003/2019, aberta pela Aneel, e cujo prazo para contribuições se encerra emmaio de 2019. O objetivo é justa- mente avaliar a regulação por incen- tivos do segmento “quanto à utiliza- ção de tecnologias na melhoria do serviço, na eficiência energética e no desenvolvimento do negócio”. Um ponto importante e que não está bem resolvido é o caso da apli- cação da tarifa branca disponível em todo o Brasil desde 1º de janeiro deste ano para quem tem consumo mensal acima de 250 kWh. Muitas empresas fizeram compras de me- didores apropriados para iniciar essa cobrança, mas a demanda ficou abai- xo do esperado porque faltou divul- gação devida. Em paralelo, os consu- midores ficaram receosos de adotar a modalidade por temer não conseguir mudar rotinas de consumo, o que le- varia a um gasto ainda maior com eletricidade. Algumas distribuidoras, inclusive, nem teriam feito maiores desembolsos, temendo, justamen- te, empatar recursos em equipamen- tos caros e de pouca procura. Outra preocupação é que a Aneel venha, inesperadamente, a resolver que as distribuidoras tenham obrigação de acompanhar parâmetros adicionais de medição, o que exigiria medido- res mais completos e sofisticados dos que os usados exclusivamente para tarifa branca. IMPACTOS DISRUPTIVOS A automação da rede e medição eletrônica, entre outros recursos, são tendências tecnológicas que vêm sen- do adotadas pelas companhias nos úl- timos anos, como forma de reduzir custos, melhorar desempenho e apri- morar eficiência operacional. Mas os principais impactos disruptivos, se- gundo alertam especialistas, ainda estão apenas começando. O rápido avanço da microgeração distribuída, abertura maior do mercado livre, for- mação de microrredes, introdução de armazenamento de energia e a multi- plicação de veículos elétricos prome- tem trazer transformações ainda mais radicais, exigindo maior capacidade de planejamento e de antecipação de tendências por parte dos executivos. “Vamos ter uma multiplicidade de al- ternativas de aplicação combinadas”, antevê o consultor Cyro Bocuzzi. O clima nesse momento é de pre- ocupação. A Abradee vem alertando de que a expansão sem limites da mi- crogeração distribuída pode ter refle- xos indesejáveis para o equilíbrio eco-

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