Brasil Energia | Ed. 456 - Maio, 2019
88 Brasil Energia , nº 456, 20 de Maio de 2019 NADA SE PERDE Resíduos e descartes para a geração de energia POR MARCELO FURTADO A iniciativa paulista de regulamen- tar e propagar o uso de combustíveis derivados de resíduos sólidos urbanos (CDRUs), inicialmente em fornos de ci- mento do estado, começou a ser imple- mentada em fevereiro deste ano. A estre- ante foi a Votorantim Cimentos, que re- cebeu licença da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), em fe- vereiro, para queimar 13 t/h de CDRUs em dois fornos de sua unidade de Salto de Pirapora (SP). Há ainda três empresas licen- ciadas pela Cetesb para produzir os CDRUs, combustíveis com poder ca- lorífico de até 4.500 kcal/kg e que são gerados por uma sequência de trata- mento para unir resíduos urbanos de aterros com materiais de sobras in- dustriais (como aparas e lotes rejeita- dos de processos), substituindo parte do coque de petróleo utilizado nos for- nos de clínquer das cimenteiras. Todas as três fornecedoras estão envolvidas no projeto da Votorantim, já que seus CDRUs passaram por tes- tes de queima aprovados pelo órgão ambiental. São elas: a Piracicaba Am- biental, em Piracicaba (SP); a Estre, em Paulínia (SP); e a Salmeron, em Soroca- ba (SP). As duas primeiras contam com aterros próprios para disposição dos re- jeitos e produção dos CDRUs. Embora apenas a Votorantim tenha, no momento, a licença, há outras soli- citações de empresas em processo de análise, segundo revelou Alfredo Rocca, do setor de avaliação e gestão do uso do solo da Cetesb. Para se tornarem aptas ao uso dos CDRUs, as solicitan- tes precisam seguir a Resolução SMA 38/2017, que estabelece as diretrizes e condições para o licenciamento e a operação da atividade de recuperação de energia proveniente do uso de CDRU em fornos de produção de clínquer. No momento, a Cetesb também avalia pro- cedimentos para permitir a queima fu- tura dos combustíveis em caldeiras in- dustriais, para gerar vapor. Segundo Rocca, desde que as in- dústrias de cimento realizem a recupe- ração criteriosa do CDRU, seguindo os padrões legais, de forma que as subs- tâncias queimadas não gerem poluen- tes atmosféricos, o procedimento é con- siderado uma medida correta para des- tinação dos resíduos, bem como para a produção de um combustível alternativo no estado paulista. Para um técnico especialista nesse mercado, que prefere ficar no anonima- to, o mérito da operação na Votorantim é puramente ambiental, por conta da redu- ção da pegada de carbono proporciona- da pelo uso do combustível alternativo em substituição do coque de petróleo. Para ele, o custo do CDRU hoje ainda é inviá- vel economicamente. Isso tanto por con- ta do alto custo logístico para transportar os preparados até os fornos, o que afeta o preço final pago pelos CDRUs pelos usu- ários; como pelo fato de seu poder calo- rífico ser no máximo a metade do apre- sentado pelo coque de petróleo. “Na prá- tica, o CDRU chega, no máximo, a 3.400 kcal e, na média, a 2.600 kcal/kg; contra 7.200 kcal do coque”, explica. Essa realidade faz o sucesso futuro do uso dos CDRUs depender muito do enga- jamento ambiental dos grupos cimentei- ros - ou futuramente dos donos das cal- deiras, quando a Cetesb liberar esse uso. Como há pouca margem no horizonte de médio prazo para reverter esse quadro de inviabilidade econômica, não havendo a influência do apelo ambiental, há gran- de risco de as operações dos produtores de CDRUs se colocarem em risco, o que comprometeria a expansão da solução. Por outro lado, pode favorecer o mercado a geração de créditos de car- bono nos projetos, para aliviar um pou- co o custo mais alto da operação. Is- so, principalmente, porque o uso dos CDRUs retira toneladas de resíduos de aterros, que, por sua vez, geram meta- no, gás do efeito estufa 24 vezes mais potente do que o gás carbônico. Resíduo doméstico como combustível Parte do processo de CDR realizado pela Salmeron, em Sorocaba (SP) Salmeron/Divulgação
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