Brasil Energia | Ed. 460 - Novembro, 2019

Brasil Energia , nº 460, 14 de novembro de 2019 61 Paula Kovarsky Paula Kovarsky é Head of US Office e diretora de Relações com Investidores da Cosan desde 2015. Escreve regularmente na Brasil Energia a cada duas edições. Não é de hoje que se fala da necessidade de reduzir emissões de gases de efeito estufa na atmosfera ou de au- mentar a participação de energias renováveis na matriz energética global. Mas a verdade é que até pouco tempo atrás essa discussão era mais restrita aos meios acadêmi- cos, fóruns internacionais focados no assunto e ONGs. Vazamentos de petróleo ou a poluição em centros urba- nos sempre levantaram debates, mas em função de even- tos específicos. Um mundo mais conectado, mais infor- mações disponíveis, novas gerações mais conscientizadas e preocupadas com o futuro são boas explicações para es- se tema ter ganhado tanta atenção recentemente.Nada co- mo a realidade batendo à porta, aliada a sinais econômi- cos corretos. E muita tranquilidade para falar do papel re- levante do Brasil nesta cruzada. A conversa fica mais séria quando algoritmos com- plexos parecem incapazes de acertar a previsão do tem- po, impactando a agricultura e os preços das com- modities. Aí o aquecimento global afeta os bolsos dos grandes investidores, das grandes tradings e de gran- des agricultores. Ou quando a consciência se traduz em mudanças relevantes no perfil de consumo: ter um carro elétrico é “cool” ou simplesmente parece melhor nem ter um e andar de bicicleta. Some-se a isso a queda exponencial do custo das ener- gias renováveis. Se, hámenos de uma década, energia solar ou eólica só fazia sentido com subsídios, essas fontes estão deixando de ser alternativas. Dez anos atrás, a geração so- lar custava cerca de USD 350/MWh nos Estados Unidos. Hoje custa praticamente um décimo disso. A geração eó- lica custava algo em torno de USD 150/MWh, custando pelo menos 3 vezes menos hoje. Interessante que a gera- ção a gás foi de cerca de USD 80/MWh para perto de USD 60/MWh (uma queda de cerca de 25%), sendo que em média os preços de gás caíram praticamente a metade no período. Existem ainda questões a serem resolvidas como a intermitência das fontes renováveis de geração, além da indisponibilidade em horários de pico de consumo. O gás natural ainda terá um papel relevante como combustível de transição nesse sentido. Comparando a evolução dos custos de geração solar ou eólica com gás, cabe no mínimo um alerta: a maior parte da geração a gás é de base. Se os preços da solar ou da eólica se tornarem tão competitivos que o gás sim- plesmente não consiga competir em determinados ho- rários, perdendo espaço na base, os custos de geração dessa fonte podem aumentar. Vivemos isso no Brasil em função da enorme sazonalidade da geração hidrelé- trica e a eterna discussão de otimização de um sistema hidro-térmico. O desafio só vai aumentar commais ge- ração solar e eólica. Existem alternativas em desenvolvimento para otimi- zar o lado da carga e aumentar a eficiência energética atra- vés de algoritmos que conectam pools de geração e carga. Isso sem contar todo o investimento na busca por uma solução de estoque de energia através das baterias, resol- vendo a intermitência. Argumenta-se que a capacidade de armazenamento das baterias evoluiu pouco nos últimos dez anos, com custos não competitivos. Mas os investi- mentos aceleram: a capacidade de manufatura de baterias de lithium/ion (em MWh) cresceu 200 vezes nos últimos 15 anos nos EUA, das quais 100 vezes nos últimos 2 anos! O Brasil já ultrapassou metas estabelecidas no acor- do de Paris. O compromisso era de chegar em 2030 com participação de 18% em biocombustíveis na matriz ener- gética. Já chegamos a 17.3% e estamos evoluindo rapida- mente ao estabelecer sinais econômicos corretos para pro- mover o aumento dessa participação: o Renovabio é um exemplo importante. A meta de participação de 45% de energias renováveis namatriz, em2030, já foi ultrapassada esse ano (45,3%) mesmo excluindo a geração hidrelétrica dessa conta – ameta era 28%e estamos em32,7%. Contra fatos não há argumentos e devemos usar esses números sempre que houver questionamento quanto ao compro- misso do Brasil com redução de emissões. Podemos e devemos evoluir em temas não tão novos, como incentivar a geração próxima ao centro de carga, reduzindo perdas, dando maior transparência no custo de transporte de energia e de gás. Podemos avançar tam- bémna implantação de tarifas horárias de energia elétrica, incrementando o mecanismo das bandeiras tarifárias. E por que não, evoluir na possibilidade de comercialização dos chamados créditos de geração renovável, entre outros. Mas, sem sombra de dúvidas, estamos no caminho! NADA COMO A REALIDADE BATENDO À PORTA

RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=