Brasil Energia | Ed. 461 - Fevereiro, 2020

66 Brasil Energia , nº 461, 15 de fevereiro de 2020 Jerson Kelman Jerson Kelman, engenheiro e doutor em Engenharia, atualmente é presidente do CA da Eneva JUROS BAIXOS E HIDROELETRICIDADE Coautor: Rafael Kelman , diretor da PSR Energy Em todo o mundo há excesso de capital buscan- do investimentos rentáveis. Maior oferta do que de- manda por dinheiro resulta em juros reais modestos. No Brasil, a taxa Selic é a mais baixa da história, mas os juros para as empresas e famílias ainda se mantêm elevados. São muitas as “jabuticabas” que explicam esse aparente paradoxo. Com otimismo, pode-se su- por que a médio e longo prazo essas “jabuticabas” se- rão eliminadas, principalmente as decorrentes da in- segurança jurídica, o que baixará a nossa taxa de juros real média para patamares pouco acima dos pratica- dos nos países desenvolvidos. Quando os juros são baixos, aplicadores em ren- da fixa tendem a migrar para aplicações de risco da economia real. Consequentemente, os projetos aptos a sorver grandes volumes de capital passam a ser mais disputados e os competidores se inclinam a aceitar TIR (Taxa Interna de Retorno) menores. Dado que o consenso dos economistas é que juros baixos é a nova realidade, as fontes de geração de energia elétrica com alto custo de implantação e baixo custo de operação ficarão mais competitivas. É o caso das usinas hidro- elétricas - UHEs. A tabela abaixo mostra o efeito da TIR real (des- contada a inflação) do projeto sobre o preço de ven- da de energia (R$/MWh) para dois hipotéticos proje- tos hidroelétricos, com custo de capital respectivamen- te iguais a R$5000/kW e R$7500/kW. Comparando o Custo Marginal de Expansão - CME médio para o período de 2025-2029 calculado pela EPE, de R$ 247/MWh, com os valores da tabela, obser- va-se que a hidroeletricidade seria competitiva em três dos quatro casos hipotéticos estudados. Esse resultado favorável para as UHEs, ou “antigas renováveis”, considera o custo de atender o incremento tanto da demanda energética quanto da potência. Tra- ta-se de um duplo objetivo alcançável pelas UHEs, por- que são despacháveis, mas não necessariamente pelas “novas renováveis” (eólica e solar). Naturalmente, o cálculo do CME não leva em con- sideração as externalidades das UHEs, tanto as positi- vas (por exemplo, controle de cheias), quanto as ne- gativas (por exemplo, reassentamentos). Ou seja, cada caso deve ser analisado individualmente. Porém, é ra- zoável afirmar que as UHEs podem ser competitivas, mesmo para valores de CAPEX ao redor de R$7500/ kW, desde que as taxas internas de retorno dos projetos se mantenham ao redor de 5%. Porém, para que novas UHEs voltem à competi- ção, é necessário realizar novos estudos de viabilida- de e atualizar os estudos de inventários hidrelétricos, estabelecendo um dinâmico processo com a partici- pação de todos os interessados. Exatamente como a ANEEL vem propondo. O diálogo serviria para expli- citar os trade-offs sociais, ambientais e econômicos de cada potencial empreendimento, tanto na escala local quanto na global. Ao contrário do que acontecia no passado, atu- almente é fácil conduzir diálogos desse tipo, com simplicidade e transparência, graças aos modernos modelos de suporte à decisão. Por exemplo, a or- ganização não-governamental The Nature Conser- vancy – TNC usou um desses modelos para realizar, com grande sucesso, inventários nas bacias dos rios Madalena (Colômbia), Coatzacoalcos (México) e Mbé (Gabão). Finalmente, é preciso reconhecer que o atual arran- jo institucional não estimula a realização de estudos de inventário por parte da iniciativa privada. Uma solução simples e sintonizada com o interesse público seria per- mitir que o programa de P&D da ANEEL pudesse pa- trocinar esses estudos.

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